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Quando o ódio senta à mesa

30 Junho 2018 07:00:00

Teria sido melhor cancelar o meteoro e manter os dinossauros no nosso lugar.

Luiz Henrique Zart - Jornalista

Nem sentar à mesa tem sido fácil em 2018. Entre as amenidades genéricas como "passa o arroz", uma certeza: teria sido melhor cancelar o meteoro e manter os dinossauros no nosso lugar.

Uma refeição é um convite à idade média. E o que se alimenta é um muro feito de ódio. Nesse campo minado onde discursos se materializam tão rápido quanto a comida esfria, ranger dentes diante das desumanidades ditas não parece suficiente. Nossos atos nos tornam seres políticos: são a forma como percebemos o mundo. Sem ponderar, no duelo de torcidas, o mata-mata do cotidiano, ou se é do time branco ou do preto. Não há diálogo. Inimigos se multiplicam.

Esse cidadão diz à mesa que Brasil bom é o clube de oligarcas onde "aquele homem" integra uma sub-raça e busca privilégios (mas o interlocutor nunca foi prioridade policial por causa de sua cor; ofensas são só brincadeira, e esse de quem se tira a humanidade tem é que voltar pro seu devido lugar). Quando "na ditadura as coisas funcionavam, não tinha essa baderna", mas a síndrome de Estocolmo não deixa ver que o direito à escolha, reflexão e inclusive a este texto, seria calado a cassetete.

Bons são os apedrejamentos, a pena de morte. Mas não quando eu dirijo bêbado ou dou aquele jeitinho.

É lugar onde o homem bom vocifera que quem precisa de programas sociais para sobreviver é vagabundo. Onde aquele com orientação sexual ou religiosa diferente merece mesmo é uma barra de ferro, uma lâmpada na cara, ou queimar no inferno por se manifestar. Onde as mulheres têm que se dar ao respeito, mas os animais homens não conseguem controlar os "instintos". Onde é natural silenciar vozes e conservar posições de poder, mesmo que para isso seja necessário acabar com o "mal", representado pelo outro, com requintes de crueldade pra mostrar quem manda. E ainda dizem que somos seres racionais.

Incapaz de ir além das verdades absolutas, essa gente fina, elegante e sincera brada desinformação e preconceito. Assombrada por medos imaginários, é a realização da distopia de Orwell em 1984: os "dois minutos de ódio" que reuniam a população a insultar "a ameaça" à sociedade mostram: Chegamos ao ponto sem retorno em que eles se repetem até o próximo "passa o arroz".


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