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Entre pensar e sofrer, a universidade

30 Setembro 2018 13:48:00


Luiz Henrique Zart - Jornalista e professor universitário 

"QUE A UNIVERSIDADE SEJA ESPAÇO DE PENSAR E APRENDER, NÃO MAIS DE SOFRER."

Um aperto no peito. A respiração sufocada. A sensação de que não vai dar tempo. São situações recorrentes para quem está na universidade, esse espaço que deveria ser de discussão, mas se torna uma máquina trituradora da nossa saúde mental. É necessário falar sobre isso, aproveitando o mês de prevenção do suicídio. Segundo a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, 15% dos estudantes de nível superior apresentam algum quadro depressivo. A média geral de quem não frequenta a universidade é de 4%. Isso é um indício de que há algo de errado.

Cobranças inesgotáveis, prazos apertados, disciplinas, competitividade, estresse, tudo isso junto a outras pressões pode nos levar a um estado de quase-colapso. Hoje, como professor, sigo sentindo os reflexos dessa postura, que por vezes é encoberta por brincadeiras e terrorismo psicológico: "você não vai passar", "não vai dar conta", repetidas à exaustão por antiprofessores que, em vez de estimular, têm na docência um instrumento torpe de vingança. Isso faz você se sentir menor, menos capaz, inadequado. Te mina por dentro.

Falar de sentimentos na universidade importa, sim. Procurar ajuda, tanto de pessoas próximas quanto de especialistas, também. Porque romantizamos o sofrimento, normalizamos a dor como algo aceitável, "parte do processo". Pelo contrário, precisamos dizer "chega".

A vida acadêmica é cheia dessas armadilhas: ou estudar ou dormir. Sofrer com estresse, falta de ar. Pensar em desistir, não ir à aula porque é uma tortura. Se sentir sobrecarregado, culpado por não estar estudando quando tira um tempo para si. Abrir mão do lazer e do descanso. Se alimentar mal. Sofrer com assédio e abuso de poder.

Não ter apoio de professores. Ouvir que isso é frescura. E se sentir um impostor, convencido de que tudo que você faz é insuficiente. Sou prova viva disso, e essa é uma confissão. Nessa guerra de egos dentro do ambiente universitário, quem sai perdendo, muitas vezes, é justamente quem deveria ganhar: o estudante, massacrado pela lógica da produtividade, posto em isolamento. Fica a pergunta: até que ponto vamos sustentar esse sistema predatório, que inibe em vez de instigar? Que a universidade seja espaço de pensar e aprender, não mais de sofrer.


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