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Aquela crise dos 20 e poucos

31 Março 2018 00:00:00

Luiz Henrique Zart - Jornalista e professor




Tempo. Às vezes só precisamos de um pouco de tempo. O problema é que, hoje, o que menos sobra são aqueles segundos que parecem, cada dia mais, escorrer pelos dedos. Esperar faz com que a ansiedade bata à porta com toda a força. E quando atendemos ou deixamos ela se acumular, pronto: lá vem o monstrinho das expectativas. Falar disso e fazer um autodiagnóstico é uma tarefa realmente difícil quando você é jovem. Porque muitas vezes é mais simples se proteger preenchendo-se de certezas do que reconhecer que está - ou é - difícil. Crises existenciais, quem nunca?

Quando você assina o contrato da vida, as letras miúdas são bem traiçoeiras. Não alertam para a lógica da pressa em um sistema que cria em nós a pressão para tomar decisões determinantes, porque assim precisa ser. Para já. Aliás, para ontem. Pode ser que o mundo, acelerado, caótico, onde a informação circula como nunca antes, e onde estamos cada vez mais cercados, gere reflexos e outros questionamentos sobre a visão que temos de nós mesmos. Porque decidir logo quais caminhos seguir é algo desafiador. Então, você pensa um milhão de vezes se realmente não sabe o que quer ou se só está tentando descobrir. Nem adulto, nem adolescente: você é jovem. É quando o tempo te sufoca.

Num tempo não-tão-distante, a maior preocupação era quanto tempo faltava pra aula acabar e você poder ir para casa assistir desenho.

Depois de algumas experiências, você se vê com dúvidas até para escolher o seu sorvete no buffet. Isso parece mesmo ser um sinal de que você está fora do eixo, perdeu o bonde da vida. Ainda mais em uma sociedade que normaliza e romantiza sacrifícios em nome de uma suposta busca por objetivos pessoais. Vale a pena se matar de trabalhar. De estudar. Por estabilidade. Pelo futuro. Em qualquer coisa. Com metas cada vez mais altas. Para ser "alguém" na vida. Desde que você siga, adiante, mesmo que não saiba para onde, e mesmo que esse alguém não seja necessariamente você. Até que ponto?

Pensar nisso é tentar - e ainda não consegui - desapegar, abrir mão das expectativas e das projeções de como o futuro deve ser. Excesso de futuro faz a gente esquecer do presente - e talvez perceber isso seja tão complicado quanto parar de fazer. Você se formou aos 22, alguém aos 40, outros nem fizeram isso. Levou dois anos para conseguir um emprego, que alguém conseguiu de imediato. Alguém é solteiro, outros têm filhos enquanto você lembra de brincar com eles no parquinho tempos atrás. Alguns amigos foram embora, e outros estão casados. Alguém tem uma empresa aos 27, outro passou num concurso, outro é feliz vendendo frutas na feira. Alguns começam a carreira aos 17, outros aos 60.

Sempre parece que alguém está à sua frente, outros atrás. Ninguém atrasado nem adiantado, cada um em seu ritmo.

Somos tão jovens, mas caímos na armadilha: a ilusão da vida bem-sucedida aos 20 e poucos anos. Talvez precisemos mesmo voltar três casas para lidar com a própria saúde mental, e entender que, como diz a música, temos nosso próprio tempo. Se alguém descobrir, me conte como é.


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