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Estudo da Unicamp 'mapeia' parasitas da leishmaniose e doença de Chagas em distritos de Campinas; Saúde monitora

13 Maio 2018 07:00:00

Circulações foram encontradas na fauna silvestre da Área de Proteção Ambiental (APA), incluindo áreas de Sousas e Joaquim Egídio. Devisa vê quadro estável, mas faz 'alerta' para prevenções.

Por G1 Campinas e Região


 Laís (à esquerda) durante trabalho com equipe da Unidade de Vigilância em Zoonoses, em Campinas (Foto: Arquivo Pessoal / Laís Moraes Paiz)

Uma pesquisa da Unicamp identificou as presenças dos parasitas da leishmaniose e da doença de Chagas nos distritos de Sousas e Joaquim Egídio, em Campinas (SP). Segundo a médica veterinária Laís Moraes Paiz, autora da tese de doutorado, as circulações foram constatadas na fauna silvestre da Área de Proteção Ambiental (APA), em análises realizadas entre 2014 e 2015. A Prefeitura diz que monitora a região e, embora indique um quadro "estável", faz ressalvas para garantir prevenções.

Durante o estudo inédito desenvolvido ao longo de quatro anos e divulgado nesta semana pela universidade, foram investigados agentes de três zoonoses: leishmaniose (tegumentar e visceral), febre maculosa e doença de Chagas. A orientação foi feita pela docente Maria Rita Donalisio.

"Eu sou especialista em zoonoses, mas vim para a Faculdade de Ciências Médicas para entender melhor uma questão de saúde pública que ocorria em Campinas: o foco de transmissão da leishmaniose visceral em cães", conta a médica veterinária que concluiu o material em fevereiro.

Laís explica que 82 mamíferos foram avaliados, incluindo gambás e saguis. Entre eles, 6% estavam infectados com Leishmania (parasita da leishmaniose), e 4% com Trypanosoma cruzi (Chagas).

"O estudo partiu da abordagem 'saúde única', que considera inter-relações entre as saúdes do homem, animais e meio ambiente [...] É preciso ressaltar que os resultados não geram nenhum alarde, o objetivo foi mapear a fauna silvestre e auxiliar a Secretaria de Saúde", afirma. Os DNAs foram detectados em amostras de sangue ou pele dos animais - capturados, sem eutanásia.

Eles estavam localizadas perto de imóveis na área urbana do entorno da APA e isso, de acordo com o estudo, significaria uma eventual possibilidade de transmissão dos parasitas aos humanos e animais domésticos, porque nas matas há insetos que podem vir a ser vetores no futuro - caso ocorram modificações ambientais e climáticas que possam, por exemplo, alterar hábitos deles.

Os animais silvestres infectados não transmitem os parasitas diretamente, por isso, a médica veterinária destaca necessidade de preservação das espécies. O estudo da Unicamp deve servir como ponto de partida para mais análises. Veja detalhes abaixo sobre as enfermidades.

Leishmaniose

Um dos mamíferos analisado, segundo a pesquisa, teve uma infecção que pode estar associada à leishmaniose tegumentar, responsável por casos humanos relatados na região na década de 1990. Além disso, dez animais tinham anticorpos para Leishmania, o que indica exposição ao parasita.

Laís destaca que, embora a leishmaniose visceral seja registrada em cães desde 2009, não houve nenhum caso autóctone (infecção ocorre na cidade) em humanos. A "estabilidade" no quadro do município provoca reflexões dela e do Departamento de Vigilância em Saúde de Campinas.


Mosquito-palha costuma ser o transmissor do protozoário da leishmaniose em áreas urbanas (Foto: James Gathany/CDC) 

"A gente não sabe se os animais silvestres já estavam contaminados dentro de um ciclo e houve a transmissão para um cão, ou se um animal infectado entrou na APA e passou a haver a transmissão [...] Entre as hipóteses que podem explicar a não transmissão aos humanos é a baixa densidade do vetor [mosquito-palha]", afirma Laís ao mencionar outras pesquisas. Para o veterinário Ricardo Conde, do Devisa, o padrão epidemiológico verificado na cidade é diferente de outras regiões.

"Ninguém tem certeza, mas pode estar ligado ao vetor. O mosquito é o mesmo, mas pode ser que o comportamento seja diferente, o caráter genético do protozoário pode ser diferente, são hipóteses. Em outras regiões, como oeste do estado, ela chegou de maneira mais agressiva e um caso no cão, a gente chama de efeito sentinela. Dois a três anos depois aconteceu em humanos."

Estatísticas do Devisa sobre a leishmaniose visceral em cães de condomínios da APA também foram considerados na tese de doutorado. Entre 2013 e 2015, o índice baixou de 1,5% para 1,2%; e no ano passado a Secretaria de Saúde também contabilizou registros da doença.

"O estudo é importante para montar este quebra-cabeça. É preciso ressaltar para a população que a gente monitora os cães que venham a ter sintomas, obrigatoriamente há notificação e investigamos com testes. Naquela região há cão doente, o vetor, e a recomendação é para que sejam usada coleira [antileishmaniose] para prevenir a picada do mosquito", afirma Conde.

Na pesquisa, a médica veterinária também buscou materiais dentro das matas mais preservadas na área de proteção, sem contato com as residências que ficam nas proximidades.

Doença de chagas

Ao ponderar que transmissões da doença de Chagas têm sido registradas por meio do consumo de açaí e caldo de cana em algumas regiões do país - quando vetores ["barbeiros"] são esmagados no preparo - Laís destaca que a passagem pelo Triatoma infestans , que se desenvolvia dentro das casas, foi erradicada em 2006 no Brasil. O estudo, avalia, serve de alerta sobre outras espécies.

"Acabou que a gente teve menos dados quanto à pesquisa de barbeiros em algumas regiões. Não sabemos quais circulam na região, mas com modificações ambientais e climáticas eles podem ir mudando de hábitos e, com isso, surgir novos. É um processo longo que precisa ser estudado", pondera ao refletir sobre novas formas de organização social e atividades que geram alterações.

Segundo ela, a próxima etapa, neste caso, será verificar se há presença do DNA do agente da doença em cães domésticos. "Ela pode indicar se houve proximidade da circulação", cita a pesquisadora ao lembrar que uma das mudanças inclui adaptações à volta das habitações.

Sem fazer alerta, o veterinário do Devisa ressalta que, caso um morador encontre alguma espécie de barbeiro, ele deve levá-lo até uma unidade de saúde ou ao Devisa.

"O estudo é muito importante porque mostra que há a circulação protozoária, e a identificação do inseto também é relevante, uma vez que há inúmeras espécies que se alimentam de plantas e não há riscos. A Vigilância precisa estar atenta às mudanças o tempo todo", destaca.

Febre maculosa

De acordo com a tese de doutorado, o DNA do agente da febre maculosa [bactéria Rickettsia rickettsii] não foi constatado no sangue dos animais avaliados, embora a doença seja motivo de preocupação para a Secretaria de Saúde. Um dos avaliados, porém, apresentava anticorpos.

A doença é transmitida para o homem por meio da picada do carrapato-estrela infectado pela bactéria, e que tem como principal hospedeiro a capivara. Entre os sintomas dela estão febre, dores no corpo, mal estar generalizado, náuseas e vômitos. A recomendação do Devisa é para que a população evite frequentar as áreas de vegetação onde há infestação e, portanto, riscos.

Serviço

O estudo chamado de "Infecção por agentes das leishmanioses, doença de Chagas e febre maculosa brasileira em mamíferos silvestre de vida livre em área de proteção ambiental do município de Campinas" deve ser disponibilizado na Biblioteca da Unicamp nos próximos dias.

O projeto foi aprovado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pela Comissão de Ética no Uso de Animais.

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