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Um amigo nas horas de dor

01 Novembro 2018 14:12:00

Seu Moacir conhece a estrutura e as histórias do Cemitério Municipal São Francisco de Assis

Franciele Gasparini


(FOTO: Franciele Gasparini)

Nesta sexta-feira (2), celebra-se o Dia de Finados e, além de relembrar os mortos com flores, velas e orações, também estará em evidência uma figura conhecida por pessoas que passaram pela dor de enterrar um ente querido: o coveiro ou sepultador.

Em Curitibanos, é bastante conhecido pela função que desempenhou quase uma vida inteira no Cemitério Municipal São Francisco de Assis, o aposentado Moacir Neves, 67 anos. Atualmente, ele auxilia na construção das caixas para sepulturas e atende a pessoas que costumam pedir informações em sua casa.

No entanto, com a idade chegando, seu Moacir confessou que precisou deixar o trabalho definitivamente para aproveitar a vida e passear. Conhecedor da estrutura do Cemitério como a palma de sua mão, ele cresceu observando o pai trabalhar como coveiro.

Segundo seu Moacir, em 8 de novembro de 1948, a família, natural de São José dos Pinhais

(PR), instalou-se em Curitibanos. Seu pai trabalhava na torrefação de café e fazia bicos de pedreiro nas horas vagas. O local, que até então era particular e abrigava sepulturas das famílias França, Rodrigues e Pereira, foi transformado em cemitério municipal, para onde foram levados túmulos e restos mortais do antigo campo santo pertencente ao município, instalado próximo à Praça dos Dotti. "Aos 9 anos, comecei a ajudar meu pai e meu irmão,

José, capinando, puxando tijolos ou retirando terra dos túmulos. Posso dizer que vivi a história do cemitério", comentou Moacir.


(FOTO: Franciele Gasparini)

Em 1972, ele foi fichado como coveiro. De lá para cá, acompanhou as várias fases do local e diversos sepultamentos. Seu Moacir comentou que, às vezes, estava dançando baile à tarde e tinha de largar tudo para abrir alguma cova. De acordo com ele, sempre trabalhando em duplas, leva cerca de quatro horas para concluir o serviço, que precisa ter 1,50 metro de profundidade por 2,20 metros de cumprimento e 80 centímetros de largura.

Questionado sobre quais momentos mais marcaram sua vida inteira dedicada a sepultar entes queridos da população curitibanense, seu Moacir destacou que todos os enterros marcam a vida de um coveiro, uma vez que o profissional precisa fazer um verdadeiro malabarismo emocional a fim de deixar de lado a tristeza e a comoção para focar no trabalho. "As famílias sofrem, choram e sentem aquela perda. Sentimos que o coração deles está doendo, sentimos junto com eles. Eu já sofri muito, mas hoje é um pouco diferente, procuro não me concentrar no enterro, tento pensar em outras coisas, pois, se ficamos prestando a atenção na lamentação, choramos junto e não conseguimos fazer nosso trabalho", salientou.


Moacir Neves aprendeu o ofício e o desenvolveu em família. (FOTO: Acervo pessoal)

Mesmo aposentado, seu Moacir ainda tem forte ligação com o trabalho que o acompanha desde criança, sendo que muitas pessoas o procuram na sua casa para pedir informações sobre a localização de sepulturas. "Muitas vezes, nem olho no livro de registros, já lembro onde fica cada sepultura, são muitos anos dedicados à esta função", completou.

Histórias curiosas

Conforme seu Moacir, é comum que algumas pessoas procurem o cemitério para acender velas em túmulos antigos, para fazer pedidos bons e maus. Um dos mais procurados é o de uma cigana, enterrada há muitos anos, onde as pessoas deixam objetos diversos, como oferendas, alguns em agradecimento. O local recebe visitantes de toda a região e até de Curitiba (PR), sendo que algumas pessoas marcam seus nomes na sepultura.

Seu Moacir informou que a cigana estava envolvida em um crime e acabou morrendo em Curitibanos, sendo enterrada no município. "O comentário que circulava na época em que a cigana foi enterrada era de que ela e o filho mataram uma criança. O filho fugiu e ela foi encontrada morta, mas alguns dizem que foi suicídio", comentou.

Outras sepulturas são visitadas para acendimento de velas e pedidos, como a do falecido Francisco da Rosa e o de uma criança que morreu em um incêndio. Figuras conhecidas na cidade, como o ex-prefeito Generino Fontana e o médico Hélio Anjos Ortiz, também recebem muitos visitantes. "Tem aqueles que visitam sepulturas de entes falecidos todo dia e aqueles que enterram e nunca mais retornam", observou.

Não raro, seu Moacir costuma encontrar objetos enterrados próximos a sepulturas, sobretudo de crianças. O coveiro aposentado ressaltou que não tem o hábito de presenciar situações sobrenaturais, mas sente quando algum espírito está sendo importunado por pessoas que buscam fazer mal para alguém. "Eu sinto que estão pedindo ajuda e é certeiro quando isso acontece, eu tenho um pressentimento. A alma que é boa pede ajuda para retirar esses trabalhos, que, muitas vezes, são negativos", finalizou seu Moacir.

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