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Raízes eternizadas nas ondas do rádio

13 Maio 2018 07:00:00

Milton Pozzo da Silva tem 68 anos e uma vida profissional repleta de sonhos alcançados e metas cumpridas

Franciele Gasparini


"O cheiro da madeira me marcou muito e me transporta para aquele tempo" (Foto: Kalyane Alves)/


Natural de Curitibanos, especificamente da localidade do Campo da Roça de Baixo, onde as memórias de quase sete décadas parecem ainda recentes, o gestor da Rádio Maria Rosa Milton Pozzo da Silva, 68 anos, coleciona uma vida profissional de muitas faces. Começou a trabalhar com 11 anos e, depois de aposentado, voltou para o ambiente da comunicação. Filho de Hegino Pozzo e Lorena França, Milton Pozzo é casado com Juraci Pozzo da Silva e, por ser filho único, sempre teve o sonho de ter quatro filhos, mas a vida lhe presenteou com seis - três meninas, uma já falecida, e três meninos.

A Semana - O que mais marcou sua vida no interior?

Milton Pozzo da Silva - O cheiro da madeira me marcou muito e me transporta para aquele tempo. Meu pai trabalhou na construção da primeira serraria de Curitibanos, lá na Cascatinha, do seu Chico Ruivo, como era conhecido; depois, na serraria da família Scarduelli, como primeiro contratado. Um fato interessante é que essa empresa pegou fogo, uma noite, e recordo até hoje, bem nitidamente, do crepitar das chamas, algo que me impressionou muito. Lembro das enchentes, até tromba d'água presenciei aqui quando criança. Apesar de minha memória não andar muito boa ultimamente, os fatos do passado permanecem eternizados e muito claros.

AS - Como era o Campo da Roça da sua infância?

MPS - Na época, o Campo da Roça era um só, não tinha nem de Cima, nem de Baixo. Foi o primeiro distrito de Curitibanos e mudou muito, pois a rodovia passava por ali, tinha linhas de ônibus e uma capela. Acredito que isso unia mais as pessoas. Com o tempo, foram sendo construídas outras capelas pela cidade e dividindo as comunidades. Lembro da morte de Getúlio Vargas, do forno de pedra e da primeira vez que vi uma bicicleta. Onde morávamos, não tinha água encanada e precisávamos andar quilômetros para buscá-la. Quando a serraria dos Scarduelli pegou fogo, ali perto de onde atualmente está o Centro Experimental da UFSC, nos mudamos um pouco para frente, mais perto de São Cristóvão do Sul, e passei a estudar lá. Era uma escola multisseriada construída em um antigo chiqueirão de porcos reformado, com ensino rígido sob o olhar linha dura da professora Elisabeth Damian Pasa. Íamos a pé e o frio era muito mais rigoroso. Lembro que uma geada emendava na outra, congelando lagos. O terror da escola era o exame final, era aterrorizador [risos]. Hoje achamos desconforto em tudo, mas, naquela época, era tão mais difícil viver. Nós andávamos de carroça... Você já viu uma carroça disparada? É a coisa mais feia do mundo, uma barulheira! Uma vez, eu e minha falecida mãe sofremos um acidente, a carroça tombou, mas saímos ilesos.

AS - Para onde os caminhos lhe levaram quando deixou sua terra natal?

MPS - Em 1960, fomos para Curitiba (PR). Meus pais começaram a trabalhar e eu, aos 11 anos, vendia picolé pelas ruas curitibanas. Meu sonho era completar 14 anos para poder trabalhar, mas não era qualquer trabalho, queria uma vaga na loja de departamento Prosdócimo. Fiz uma entrevista, que na época era muito rigorosa, para a vaga de aprendiz de vitrinista, mas descobriu-se uma mancha no meu pulmão, ninguém sabe de onde, e perdi a vaga, mas consegui uma chance na seção de brinquedos. O movimento era impressionante, principalmente no Natal; os produtos da Estrela se esgotavam, vendiam como água. Foi nesse emprego que conheci o primeiro computador, um IBM PC. Existem duas histórias bem interessantes nesse período, mas que não sei até que ponto é verdade ou procedem. Uma delas é que o dono da Prosdócimo era um pescador nato e o irmão dele era dono da Refrigeração Paraná, atual Electrolux. Um dia, o pescador pediu ao irmão se ele poderia fabricar uma geladeira deitada, o que prontamente foi atendido e então surgiram os refrigeradores horizontais. A outra é que, em um determinado momento, o setor de brinquedos da Prosdócimo queria vender a linha infantil de móveis também, ocorreu um desafio e, dentro dessa disputa, começamos a vender as cadeirinhas de alimentação de uma marca muito boa, um sucesso, tanto que não supria a demanda. Um dia, eu estava descendo uma rua e dei de cara com o dono de uma fábrica de brinquedos, muito meu amigo, e perguntei para ele se poderia fabricar uma cadeirinha igual àquela que vendíamos que nem água. Ele levou o modelo e voltou com um protótipo que também vendemos muito bem. Fiquei sabendo, anos depois, que esse mesmo homem ingressou no ramo de móveis infantis e se deu muito bem, com uma loja conceituada em São Paulo. Se é verdade, não sei, mas foram episódios que me marcaram. Aos 19 anos, fui para área industrial, trabalhei para laboratório e, depois, para uma grande empresa de publicidade, que me proporcionou a primeira viagem de avião. Lá, tive meu primeiro contato com a comunicação, TV, rádio, revistas, jornais, outdoors, no Brasil todo, conheci o Maurício Sirotsky e levei os primeiros exemplares do Zero Hora para Curitiba, onde ninguém conhecia. Em 1984, fui parar em Rondônia, morei em Alta Floresta por um ano, parecia o velho oeste [risos]. Aí, bateu o Enori Pozzo me chamando para vir a Curitibanos trabalhar na rádio. Recusei, mas, depois, Frei Eliseu Tambosi, meu amigo dos congressos da época de vida publicitária, me telefonou e voltei para a terra.

AS - O que mais o surpreendeu ao retornar a Curitibanos?

MPS - Não fazia nem 20 dias que eu estava em Curitibanos e, na agência da Caixa Econômica Federal, alguém que eu nem conhecia me chamou dizendo que tinha uma ligação para mim. No mercado, você fazia o cheque e ninguém conferia os dados, era muito diferente do que vivia na capital paranaense. Fizemos um trabalho intenso na Fundação, tive muita ajuda do Ubirajara Mello (Bira) e, em 2004, assumi a gestão. Foram inúmeros projetos, nova sede, parcerias com o Jornal "A Semana", por exemplo, como o Comunicação Solidária, Cidadão Saúde, SOS Brinquedos, Campanha do Agasalho... Em 2015, me aposentei e, este ano, surgiu a oportunidade retornar a um ambiente tão familiar para mim, como é a radiocomunicação, e tem sido uma experiência muito bacana.

AS - Qual é sua curtição?

MPS - É engraçado, mas estou sempre trabalhando. Quando minha mãe era viva, me dedicava aos cuidados com nosso sítio, pois gosto muito de plantar, ver as plantas crescendo... Gosto também de uma pescaria e dos momentos em família, churrasquinho, jogar um truco, é muito especial. Sou filho único e sempre invejei quem tinha irmãos, até nas horas de brigar [risos], por isso, sempre quis ter pelo menos quatro filhos e fui presenteado com seis, Milton Cesar (Sese), Glaucio, Susan, Daniele, André e Caroline, que faleceu muito jovem, vítima de um câncer. Hoje, a família faz parte do meu lazer, estamos reunidos sempre que possível.




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