Curitibanos,
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NEGRINHO DO PASTOREIO

25 Março 2018 08:00:00

Sebastião Alves



O Negrinho do Pastoreio é a mais famosa história do tropeirismo. Começa no Rio Grande do Sul e se espalha até as fronteiras de São Paulo.  

Um pretinho, filho de escravos, afilhado de Nossa Senhora, nasceu na fazenda de um rico estancieiro. A tarefa do crioulinho era cuidar dos cavalos de trato do senhor e recolher, todas as tardes, as vacas leiteiras com seus terneiros para serem apartados nas mangueiras.

Certo dia, um cavalo baio desgarrou-se do grupo. O negrinho perambulou a noite inteira pela fazenda à procura do fugitivo, sem poder encontrá-lo. De volta, cansado, com frio e com fome, foi castigado violentamente pelo senhor. Depois, ainda com vida, foi enterrado num formigueiro. Logo a seguir, sua alma vagava pelos pampas, laço em punho, montado num cavalo baio, tangendo um rebanho invisível formado por animais extraviados, no que só era reconhecido pelo tropel. A devoção na alma do crioulinho pendura no tempo e ainda oferecem velas, promessas e rezas para encontrar coisas e animais perdidos.

O "nosso" Negrinho do Pastoreio (aqui dito do Pastorejo) não é o mesmo dos pampas gaúchos. Conta-se, na velha tradição local, que um tropeiro vindo do Rio Grande, no início de Inverno, com uma tropa de gado e animais em direção às Feiras de Sorocaba, trazia como madrinheiro um negrinho, filho de escravos. Passando pelo Entreposto dos Curitibanos, pernoitou com a comitiva na Rua Coronel Lauro Müller esquina com a Rua Coronel Ferreira de Souza (antigo Cemitério), cujo local, aproximadamente em 1960, ainda possuía uma pequena cruz de cedro roliço, cujo lenho brotara junto de três pedras graúdas em forma de trempe, como os tropeiros usam para suspender as panelas ao fogo. Era rodeado por outros pedruscos menores, sobre os quais se acendiam velas de promessas e devoções. No vão da trempe, em sinal de devoção, ateavam pequenas fogueiras ao entardecer dos dias de São João e São Pedro, também nas noites frias do Inverno, para esquentar a alma do negrinho.

Prosseguindo o relato, amanheceu torvo, um frio de rachar. Mesmo assim, a tropa locomoveu-se ao Rio das Pedras, onde enfrentaram forte nevasca. O crioulinho, mal agasalhado, abatido e muito judiado, ao alcançar o campo do Corisco, acabou perecendo (Fazenda da Chapada em Santa Cecília), sendo abandonado pela comitiva. Algumas boas almas providenciaram o sepultamento e cravaram uma cruz no local. Anos depois, edificaram uma capelinha, que tem sido conservada até hoje.


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