Curitibanos,
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Olhar para o futuro

27 Abril 2018 09:00:00

Refletem e questionam qual será o destino da agricultura brasileira se não houver quem plante

Franciele Gasparini


(Foto: Franciele Gasparini)

Na roça não tem hora, não tem confraternização em família, não tem horário certo para acordar ou para dormir. A rotina se resume a levantar cedo e dormir tarde, olhar para o tempo e fazer qualquer reza que possa espantar chuva indesejada na colheita ou chamar ela quando a estiagem parece querer se instalar. 

Fui criada nessa realidade. Meus pais, tios, tias e avós viviam sempre nesse compasso. O agricultor não é escravo do relógio como todo trabalhador da cidade, mas fica de mãos amarradas por inúmeros outros fatores, o clima é um deles, mas o fator econômico é o mais cruel.

Se a lavoura vai bem, as condições climáticas foram favoráveis, choveu certinho, deu Sol na medida certa, o desenvolvimento das plantas foi perfeito, não houve muita ocorrência de doenças ou pragas que pudesse causar algum desequilíbrio na produção, pode ser que todo aquele esforço, todos os domingos abdicados em prol da plantação, tenham surtido o melhor efeito, e o sucesso da safra esteja garantido, mas se a economia não ajudar é fracasso certeiro.

Curitibanos pode vivenciar um pouco desse sufoco na última quarta-feira (25), quando produtores de alho de Curitibanos, Frei Rogério e Brunópolis tiraram os tratores da lavoura na tentativa de sensibilizar autoridades e as instituições bancárias para a flexibilização dos financiamentos, mas não apenas isso, por traz de trabalho e dedicação de cada agricultor está uma família inteira.

Ao indagar um dos produtores sobre o objetivo da manifestação, um deles me falou sobre o futuro. Dizia ele que seus filhos serão os futuros agricultores da nossa região, mas em que condições? Não precisa se esforçar muito para perceber que a juventude tem deixado o cabo da enxada no meio da roça e traçado um caminho sem volta para os centros urbanos.

A preocupação de quem tem alimentos frescos à mesa todo dia certamente não é com o futuro da agricultura, mas vale ou não uma reflexão? Os manifestantes da última quarta não puseram suas máquinas no asfalto simplesmente por mais prazo ou por um olhar mais atento do governo sobre a importação que tem assolado a competitividade do alho nacional, sobretudo o do Sul.

Os agricultores também olharam para o futuro, refletem e questionam qual será o destino da agricultura brasileira se não houver quem plante, quem colha ou produza na altura de um consumo cada vez mais crescente. Procuraram também resgatar uma pitada de valorização e reconhecimento, pois trabalhar de Sol a Sol não é para qualquer um.


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