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EM PAUTA

O mundo será dos idiotas?

15 Outubro 2018 17:57:00

Tatiana Ramos


"Os idiotas irão tomar conta do mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade". A frase foi dita por Nelson Rodrigues há uns 50 anos, mas não poderia ser mais atual. Em tempos de uma eleição comandada pelo ódio - ou pelos "petralhas" ou pelos "fascistas" - e pela desinformação, fica fácil constatar como o ser humano tem cedido, sem nenhuma resistência, ao conforto da ignorância. O cenário mais propício para essa observação é a tela das redes sociais, mas em conversas do dia a dia, almoços de família, encontros casuais, também ela está lá: a opinião disfarçada de informação. 

Cada vez mais, o que se fala e o que se escreve têm se tornado vazio, superficial, muitas vezes até infantil. Há um bom tempo, estudei na faculdade de Jornalismo sobre controle de opinião pública e as ferramentas utilizadas para dizer às pessoas, de forma velada, o que elas devem pensar. E hoje, refletindo sobre o que leio e escuto, percebo como está fácil não só convencer as pessoas de argumentos absurdos como torná-las reprodutoras de um discurso quase inacreditável. É uma contradição que me traz preocupação e tristeza; ao mesmo tempo em que temos acesso a tanta informação, em que a evolução tecnológica é tão rápida, paramos de pensar, de questionar, de realmente refletir sobre o que chega até nós. Estamos nos tornando meros reprodutores do que nos passam como verdade, sem exercermos um dos maiores dons dados ao ser humano: a dúvida. Como é importante duvidar, desconfiar, investigar! Acho que foi exatamente essa "pulga atrás da orelha" que trago comigo desde que me lembro que me levou ao Jornalismo. 

Por quê? Como? Será assim mesmo? Essas e outras perguntas são capazes de nos mostrar como a dúvida e a curiosidade sadia podem nos levar ao conhecimento. Quem não desconfia e não questiona fica apenas na parte rasa de um mar de possibilidades que, como seres racionais, apenas nós temos. Para mergulhar fun?do no conhecimento e saber cada dia um pouco mais sobre o mundo, é preciso questionar sempre, exaustivamente, nunca ficar satisfeito com a primeira resposta e muito menos com a solução fácil para problemas complexos. 

Mas, claro, questionar é difícil. Principalmente porque, em muitos casos, precisamos questionar nossas próprias crenças e convicções. Como questionar que, talvez, o seu deus não seja o deus de todo mundo; que seu time do coração pode não ter o melhor elenco para ser campeão; que seu candidato não seja o mais preparado e com propostas mais viáveis? A diferença básica da importância desses questionamentos é que, tanto na religião quanto no esporte, os impactos são pessoais, individuais, atingem apenas as nossas vidas. Por outro lado, ao escolher um governante, é preciso pensar coletivamente, porque suas ações vão impactar na vida de todos. E, por essa razão, é que precisamos tanto questioná-lo. 

Quando falamos em política, estamos falando não só dos altos salários pagos a cargos eletivos, estamos falando de poder... e o poder é, talvez, uma das maiores tentações do ser humano. Então, antes de dar esse poder a alguém, é preciso questionar o que se pretende fazer com ele, de que forma será usado, como não se deixar do- minar por ele. De novo, questionar, analisar através de ações e não de discursos se aquela é mesmo a pessoa a quem confiaremos nossos destinos. 

Em nossa vida de adultos estressados e, muitas vezes, desiludidos, é preciso manter acesa a esperança em nossos corações. Mas não podemos deixar que a esperança nos torne incapazes de ver além do que queremos ver, nos leve a fazer recortes na realidade para nos satisfazer. Não podemos depositar nossas esperanças cegamente em alguém e aguardar que um milagre aconteça, como crianças que escrevem suas cartinhas ao Papai Noel e esperam, ansiosamente, pelo presente que acreditam ganhar no Natal. 

Nessas eleições que seguem para um 2º turno polarizado?e visceral, precisamos manter nossa capacidade de raciocínio lógico, estarmos alertas às armadilhas dos discursos fáceis e à comodidade de deixar que pensem por nós. Como pensadores que somos, não podemos abrir mão de pensar nem de questionar. Na escolha de um novo presidente, podemos ser de direita, de esquerda ou "isentões"... só não podemos ser idiotas. 





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