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Guerra anunciada

23 Fevereiro 2018 00:05:00

Olhando de longe, parece que o rio tornou-se a faixa de gaza brasileira

Tatiana Ramos


(Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil)


Inevitável. Foi assim que o jurista e militante dos direitos humanos José Gregori definiu a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, iniciada na última semana. Apenas lembrando que intervenção federal e intervenção militar são coisas diferentes, acredito que não há muito como discordar que algo emergencial e de impacto precisava ser feito para, pelo menos, tentar colocar um pouco de ordem na terra sem lei na qual se tornou a Cidade Maravilhosa.

É claro que, para os oposicionistas, o "governo golpista" de Michel Temer tem outras motivações com a intervenção, mas mesmo os mais críticos precisam admitir que alguém deve tomar as rédeas quando o próprio governador declara, publicamente, que não tem mais controle sobre a segurança pública do Estado que o elegeu para comandá-lo. E, para o governo federal, esse "alguém" deveria ser um general do Exército.

Como será a atuação, os sucessos ou fracassos da ação, não há como prever, já que esta é a primeira vez no país, desde a Constituição de 1988, que é decretada uma intervenção federal. O que sabe é que, obviamente, o Exército não resolverá, até 31 de dezembro, prazo da intervenção, o problema da violência no Rio de Janeiro. Ali, o problema já está arraigado e a cultura da criminalidade tomou todos os espaços - de bailes funk nas favelas a comandos de corporações policiais.

Olhando de longe, parece que o Rio tornou-se a Faixa de Gaza brasileira, onde matar e morrer fazem parte do dia a dia e já não causam a revolta e a comoção que deveriam. A violência banalizada e impune está enraizada e, nesse caso, há duas opções: jogar a toalha e aceitar que não há mais o que fazer ou tentar algo diferente, que ainda não foi tentado, para buscar algum progresso em direção a uma solução. Se funcionar, ótimo; se não funcionar, será preciso outra coisa. Mas o quê? Desarmamento, educação, campanhas, projetos sociais... Parece que nada surte muito efeito e que nenhuma política pública é capaz de organizar o caos que tomou um de nossos principais - senão o principal - cartões postais.

O que se espera é que a presença do Exército e sua postura diferenciada em relação a uma polícia corrupta estabelecida no Rio sejam suficientes para intimidar e reprimir criminosos que, hoje, agem com a certeza da impunidade e da vista grossa de muitos policiais que se tornaram mais bandidos do que aqueles que deveriam combater. Depois, é a hora de tomar os espaços novamente e tentar reverter o estrago feito até então. Um trabalho árduo e lento, mas, assim como a intervenção, inevitável.


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