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Gritos silenciosos de socorro

11 Setembro 2018 11:20:00

Por Tatiana Ramos


(Foto: Divulgação)/


Cortes feitos a?s escondidas que traduzem, em sile?ncio, um grito de desespero por atenc?a?o, apoio e compreensa?o. As marcas que nossos jovens te?m feito em seus corpos sa?o apenas reflexos da dor que esta? em suas almas e que, pelas mais variadas razo?es, na?o estamos enxergando. E? preciso, mesmo, que crianc?as e adolescentes mutilem- se ou matem-se para que prestemos um pouco de atenc?a?o neles? O que esta?o querendo nos dizer com essas atitudes de auto agressa?o e que, do alto de nossa maturidade, na?o conseguimos entender?

Este Setembro Amarelo que esta? comec?ando vem reforc?ar a necessidade de olhar ao nosso redor e observar quem esta? ao nosso lado. Os sinais de que algue?m esta? em um poc?o ta?o fundo que ja? na?o acredita ser possi?vel sair esta?o bem a? nossa frente, mas precisamos abrir os olhos para ve?-los. Dar a nossas crianc?as e jovens uma liberdade sem limites, querer preservar sua privacidade como algo sagrado e achar que, para sermos modernos e liberais, temos de deixar de ser pais para nos tornarmos amigos de nossos filhos te?m tido resultados nada positivos na pra?tica.

Estarmos pro?ximos e demonstrarmos preocupac?a?o, ao contra?rio do que muitos pregam, na?o e? sufoca?-los; o que estamos dizendo com isso e? que nos importamos com eles e estamos bem ali, para quando precisarem. E e? isso que eles te?m esperado - muitas vezes em va?o - de no?s. Nos consulto?rios de Psquiatria, e? comum a conclusa?o de que o que esta? causando tantos


"Temos sido econo?micos demais

em amor e generosos demais em consumo"


problemas aos jovens e? a falta de dia?logo, de companheirismo em fami?lia, de pais de verdade. Ao dar a eles tanta liberdade, a mensagem que esta? se passando e? de que esta?o por sua conta, sozinhos na?o so? em seus quartos, mas em suas vidas.

Essa sensac?a?o de desamparo tem levado a nu?meros ta?o tra?gicos quanto crescentes. Psiquiatras ja? contabilizaram que, de 1980 a 2014, houve um aumento de 27,2% nos suici?dios entre pessoas de 15 a 28 anos. Aqui mesmo, em nossa pe- quena regia?o, temos va?rios casos de adolescentes e jovens que tentaram e ate? mesmo chegaram ao suici?dio.

Em uma fase ta?o conturbada de suas vidas, quando os sentimentos vivem em rebelia?o e e? ta?o fa?cil sentir-se inadequado, e? pre- ciso que eles saibam que te?m algue?m em quem confiar e que sera? seu suporte para tudo o que precisarem. Mas, em tempos ta?o acelerados e comandados pelo relo?gio, temos sido econo?micos demais em amor e generosos demais em consumo. O vazio da presenc?a tem sido preenchido por presentes e nossa companhia tem sido substitui?da pela companhia do amigo tecnolo?gico, que aproxima quem esta? longe, mas afasta quem esta? perto.

E e? preciso estar perto para perceber as horas que passam tranca- dos no quarto, para notar que na?o trazem amigos em casa, que es- ta?o comendo de mais ou de me- nos, para observar que as mangas compridas sa?o usadas independente da temperatura. Para especialistas, os sinais sa?o bastante o?bvio se, para os pais, para quem convive no dia a dia com essas pessoas, deveriam ser mais ainda.

"Ao dar a eles tanta liberdade, a mensagem

que esta? se passando e? de que esta?o por sua conta, sozinhos na?o so? em seus quartos, mas em suas vidas"


Mas por que alguns pais descobrem, apenas no consulto?rio psiquia?trico, que seus filhos deitam a?s 10 horas da noite mas dormem a?s 4 da manha?; que se cortam com facas de cozinha e giletes ha? anos, sem que tenham percebido; que tomam comprimidos tidos como comuns como intuito de matar-se? E? preciso que a fragilidade de nossas crianças seja levada mais a se?rio, porque ignora?-la ou ridiculariza?-la tem levado a desfechos tra?gicos.

A estimativa preocupante e? que, ate? 2020, o i?ndice anual de suici?dios chegue a 50%. E na?o estamos falando de uma previsa?o distante, mas algo para apenas dois anos a? frente. Somente isso ja? deveria ser motivo para que deixemos de lado preconceitos e acomodac?o?es e passemos a conversar e aprender mais sobre o que leva tantas pessoas a abrirem ma?o de suas vidas... Mas infelizmente na?o e?. Com a nobre e problema?tica missa?o de alertar para o suici?dio e as formas de evita?-lo, a campanha Setembro Amarelo vem sendo realizada, ano apo?s ano, mas ainda parece insuficiente para que se entenda o apelo

de quem, ja? sem forc?as e sem discernimento, decide que acabar com a pro?pria vida e? a u?nica soluc?a?o para seus problemas. Mas que problemas? Se eles fossem externados, trabalhados em conjunto, com apoio e carinho, na?o se- ria possi?vel resolve?-los sem um fim tra?gico? Cabe a quem consegue manter sua estabilidade emocional prestar atenc?a?o aos gritos silenciosos de socorro que podem chegar de todos os lados... e agir, para que a indiferenc?a na?o se transforme em la?grimas de luto.


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