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Vizinhos

14 Outubro 2018 10:00:00


(Foto: Divulgação)


Morei, em período muito curto, num apartamento. Antes de ali residir ganhei de um amigo um sabiá que ele criara desde filhotinho. Bichinho maravilhoso! Cantava o dia inteiro. Por isso pendurei a gaiola na sacada. Adorava ouvi-lo e permitir que os vizinhos também tivessem o mesmo prazer. 

No meio da tarde de um certo dia a campainha tocou. Era minha vizinha, solteirona que morava sozinha no apartamento ao lado. Pediu-me, sem qualquer cerimônia, se era possível colocar um panopor cima da gaiola, impedindo que o sabiá cantasse. Alegou que trabalhava no período noturno e que precisava dormir durante o dia. O canto do sabiá estava importunando seu soninho. No conflito da minha indignação com o bom senso, venceu o segundo. Levei meu querido passarinho para a casa de um parente.

Por quê conto isso? Para falar de vizinhos. Existem vizinhos simpáticos, prestativos e educados. São pessoas que não perturbam ninguém.

Mas tem vizinho para todos os gostos e calibres. Alguns têm atitudes chocantes e bizarras.

Outros têm esquisitices estranhas e até mesmo engraçadas. Invejosos? Deste tipo tem bastante. Vivem de olho na vida dos outros, fiscalizando se comprou uma geladeira nova, um televisor de duzentas polegadas, se comprou um carro zero. E lá vem comentários desairosos: "Onde arruma tanto dinheiro? Aí tem coisa!".

Vizinhos há que nos dias menstruados não dizem bom dia pra ninguém, ao passo que em outros dias apresentam-se sorridentes como se tivessem ganhado a megasena.A convivência não se torna nada fácil. Vizinhos fiscais são os que mais tem. Olham tudo, regulam tudo, vivem delatando pequenos deslizes para o síndico. Daqueles que levam uma lista de reclamações nas assembleias do condomínio. Vivem incomodados com os tamancos da vizinha de cima, da algazarra das crianças dos moradores do lado direito, do latido do cachorrinho do apartamento do lado esquerdo.

Sendo vizinho de rua tem alguns que reclamam porque a rua tem lombada e reclamam porque não tem. Já vi vizinho reclamar do cheiro da churrasqueira da casa limítrofe, do barulho do portão da residência da frente, da gritaria na piscina da mansão da esquina. E os folgados? Aqueles que colocam o saco do lixo na tua lixeira, que a cada passo pedem emprestado uma ferramenta, que quando viajam te escalam para ser vigia da casa dele.Chatos? Bah! Dessa espécie achamos aos bandos, não só na vizinhança. Vizinhas pidonas, fofoqueiras, reclamonas, briguentas, pilantras.

Tive um vizinho metido a astrólogo. Cortava meu caminho para me dar conselho e anunciar catástrofes. Sabia até o bicho que ia dar. Nunca acertava, não tinha nada a ver! Tem até casais sem vergonha afrontando os vizinhos com demonstrações de fogosa sexualidade. Tem tudo. Vizinhos amargos que sempre estão de mal com a vida. Chorões que se queixam que pra ele nada dá certo. Agora, façam-me um favor: reclamar do canto de um sabiá só pode ser coisa de gente rabugenta e intrigada com o mundo!


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