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RABUGENTO

25 Novembro 2018 08:50:00

Talvez no tropeço dos outros compenso os meus

Carlos Homem

Acredito que este meu compromisso semanal de escrever uma crônica, aqui neste espaço, está me deixando cada vez mais rabugento. Implico com as palavras, com os modismos, com as gírias, com tudo. Estou sempre vigiando como falam e como escrevem. Como se eu não errasse a todo o momento! Mais um cacoete, entre os tantos que tenho. 

Talvez no tropeço dos outros compenso os meus. Nestes dias, como exemplo, descobriram o substantivo "expertise". Nunca tinha ouvido isso antes. Primeiro numa propaganda de empresa dedicada aos fundos de investimentos, depois um repórter daqui outro entrevistado dali. Pronto! A moda está pegando e agora usar "expertise" é muito mais chique do que falar especialista ou experiente. O humano é um macaco melhorado. Ou piorado. Adora imitar.

 Aliás, o substantivo feminino "imitação" agora virou "memes". Dia desses brinquei com uma colega no WhatsApp sobre esse termo. "Zoei", se é que posso usar o idioma dela. É que sou bronco e refratário à essa linguagem truncada das redes sociais. Ela reflete o tamanho da minha alienação. Acrescentar inovações, incorporar novas ideias, novas técnicas, adicionar informações, são expressões que ficaram a latere com o uso dominante e recorrente do "agregar valores". E os vinhos? Ninguém diz que este ou aquele vinho é mais suave, menos seco, mais aveludado, mais leve, etc. A frescura, para se bancar o entendido, é dizer mais "encorpado" ou menos "encorpado". 

Existe também uma hierarquia entre as palavras. Desfalque é muito mais elegante do que roubo, não é? Que o indivíduo tal praticou apropriação indébita fica menos agressivo do que chamá-lo de ladrão. Ou não? Fazer xixi é socialmente aceitável, mas mijar é uma expressão cascuda e agressiva dependendo do ambiente. Cocô é um eufemismo que soa menos fedido do que o seu sinônimo. Há mesmo alguns vocábulos infames que dificultam a pronúncia correta: defasagem, estupro, superstição, perscrutar, que enrolam a língua, entre tantos. 

O tratamento que nos dedicam também têm sua importância subordinada aos sinônimos utilizados. Na minha fugaz existência, fico com o peito estufado quando as moças do telemarketing me chamam de cavalheiro, pois no dia a dia sou apenas um cara grosseiro. Falei logo no início que estou cada vez mais "rabugento". É mais popular dizer assim, porque "irascível", que confesso que sou o adjetivo é menos confortável.

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