Curitibanos,
35anos barrra.png
35anos barrra.png
  
CarlosHomem.jpg

Oco do Mundo

18 Fevereiro 2018 09:00:00


Frei Eliseu, de quem sou amigo, está próximo dos seus 92 anos. Liga-me de vez em quando. Com tal longeva vida, é invejável a lucidez e a agilidade do seu raciocínio. Semana passada disse-me pelo telefone que ainda tem a esperança de me ver convertido.Manifestou-me o seu desejo de que eu, a exemplo de Paulo, o ApóstoIo, descubra uma fé para nortear minha vida. Achei graça! Respeito a imensidão da sua crença como ele respeita a inexistência das minhas.

Querer acreditar é também uma opção de vida que não busco. Com humor retruquei ao meu amigo sacerdote que para minha conversão seriam necessários dois acontecimentos iguais aos de Saulo de Tarso, antes dele virar Paulo: Cair do cavalo e percorrer a estrada para Damasco. Brinquei com ele. Não sei montar e não tenho vontade de conhecer a capital da Síria. Ainda mais nestes dias! Depois daquela conversa fiquei encasquetando umas coisinhas malucas: E se eu fizesse meditação? Uma meditação transcendental. Daquelas que faz derreter egos e superegos. Mas logo eu? Sou do tipo que arrumo encrenca porque debocho da homeopatia, dos trololós esotéricos, das simpatias e sortilégios.

Eu? Que tiro sarro desses videntes, astrólogos, quiromantes, e outros embusteiros? Que me rolo de rir "das coisas feitas", dos "olhos gordos", dos "maus olhados", dos "agouros" das "pragas de putas", dos "milagreiros televisivos". Mas religião não tem nada a ver com isso tudo. Não? Qualquer crença que resolva, ou prometa resolver nossa inhaca espiritual ou conflitos interiores não é religião? Então, quem sabe, a alternativa está na meditação. Esta sim não é religião. Não precisa ter fé, nem reza, nem incenso.

Daí, vou sentar sobre as minhas pernas dobradas, arrumar as mãos como se estivesse orando, mesmo que doa o cóccix, e ficar por horas pensando só em coisas boas como se fora um Buda magro, versão curitibanense. Embora já seja careca, não vou ficar pelado e me enrolar numa manta amarela. Daí também já seria demais!Dizem que o ideal é não pensarem nada, ficar naquele transe que denominam de "zen". Mas não vai ser fácil ficar sem lembrar do saldo negativo do banco, dos boletos vencidos, do IPTU que aumentou, dos talões de água e luz. Não tem "zen" que pague essas desgraceiras todas!

Aí, depois de trinta minutos em estado de relaxamento, como se fosse num sono profundo, vou despertar calmo, aliviado, pronto para me azucrinar de novo até a próxima sessão. Sei, sei que buscar um sentido para a vida com tais pensamentos me faz um idiota e imbecil. Porém garanto. Posso montar num porco, mas não caio de cavalo!


JORNAL "A SEMANA"
Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida
89520-000  -  Curitibanos/SC  -  (49) 3245-1711