35anos barrra.png
35anos barrra.png
  
CarlosHomem.jpg

O Troféu

12 Agosto 2018 08:50:00


Mais amigo do que cliente ele entrou todo sorridente na minha 

sala de trabalho. Trazia um embrulho que segurava com cuidado

em ambas as mãos. Foi logo dizendo: "Doutor, como o senhor deve

estar sabendo meu pai faleceu há pouco mais de um mês.


O velho era um homem que gostava muito de erotismo. Colecionou

essas coisas a vida inteira. Deixou uma porção de pequenas esculturas

e quadros, todos com essa motivação. Nem sabemos como

vamos nos livrar de todo aquele acervo. Mas, lembrei de lhe dar de

presente uma escultura. Uma obra de arte, fundida em bronze. Meu

pai gostava muito do senhor. Então, acredito, poderá adornar sua

estante com ela. Era um par, exatamente iguais, mas uma sumiu!

Desconfio até que roubaram. Gostaria de lhe presentear com as duas."

A medida que falava foi desembrulhando o meu presente. Realmente,

era um troféu fundido em bronze e muito bem trabalhado.


"COISA CHATA!

RESOLVI ME LIVRAR

DA ESTATUETA TARADA"


Sob este aspecto era lindo. Um prodígio! O problema estava no

que representava. Um casal nu, enroscados na intimidade, sendo

felizes na horizontal. Praticavam aquele ato do amor universal

que perpetua a própria espécie. A forma, no entanto, era completamente

inusitada. Um sexo grotesco! Constrangia qualquer um só de

olhar. Então, entre confuso e sem jeito não tive como recusar. Agradeci

e guardei a escultura erótica. Daí fiquei com o problema: Fazer

o quê com aquilo? Deixá-lo sobre a minha mesa, não dava. Ofenderia

as pessoas que ali fossem falar comigo. Levar para a minha casa

seria mais constrangedor ainda. Dar para outra pessoa correia

o risco do meu presenteador ficar sabendo. Coisa chata! Resolvi me

livrar da estatueta tarada.


Enrolei bem aquele presente de grego numas folhas de jornal, coloquei-

o em seguida dentro de uma pequena caixa usada de papelão,

e despistando como se estivesse praticando um delito, joguei

aquilo tudo no lixo lá da rua. Ufa! Senti uma sensação de alivio! Passados

poucos dias o mesmo homem voltou ao meu escritório. Sorria

agora mais satisfeito do que nunca. Trazia, como na vez anterior,

um pacote nas mãos zelosas. Disse-me: "Doutor, o senhor não

vai acreditar. Meu filho que trabalha no setor de reciclagem do lixo,

por sorte sua, achou a outra escultura igual àquela que lhe dei,

mas que havia sumido. Vim lhe trazer de presente também. O senhor

agora tem as duas!". É verdade, falei para ele, sou mesmo um

homem de muita sorte!

JORNAL "A SEMANA"
Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida
89520-000  -  Curitibanos/SC  -  (49) 3245-1711