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O folgado

25 Fevereiro 2018 08:00:00

Só restava aceitar o seu jeitão de sangue doce que todo malandro tem

Carlos Homem

O folgado entrava sempre quando a aula já havia começado. Muitas vezes até mesmo no meio delas. Nunca trazia um livro consigo. Sequer uma folha de caderno mal arrancada. Nem um toco de lápis, pra não falar de caneta o malandro levava. Cabulava também com muita frequência. Como professor marquei a figura. Fiz um "X" na testa dele. Fiquei aguardando o dia da primeira prova mensal.

Queria dar, como sempre dei, uma atenção toda especial para a dele. Minha intenção era fazê-lo ver que a coisa não podia ser assim tão flauteada. Não lhe cabia o direito de ser tão displicente. Chegou a oportunidade! Durante a prova fiquei disfarçadamente o tempo todo de olho naquela figura. Mas não vi nada. Abaixou a cabeça e mandou ver. Nem olhava para os lados. Terminou antes que todos.

Quando saiu da sala, peguei a prova e dei uma corrida rápida de olhos sobre ela. Estava, à primeira vista, quase que inteiramente correta! Que diabos, pensei! Esse desgraçado é mais ligeiro do que imagino. Deve ter uma técnica toda especial para colar.

Em casa, enquanto corrigia, não tive como não lhe dar um nove. Foi uma das melhores notas daquela prova. E ele continuou folgado. No segundo mês, no momento em que acabei de entregar as folhas da prova mensal, devagarinho fui caminhando pela sala e me postei próximo das costas dele. Hoje não me escapa! Cuidei até para ver se não havia algum ponto eletrônico nas suas orelhas.

Pois não vi nada de novo. Escreveu fluentemente, parecendo até estar com pressa, alheio a tudo e a todos, terminou entre os primeiros, levantou, colocou a folha sobre a mesa, e se mandou. Outra nota excelente. E assim foi todo o semestre. Eu, da fase do espanto passei para a da admiração e desta para a da inveja. Ele era assim mesmo. Aquilo era dele. Estava credenciado para ser indolente. Só restava aceitar o seu jeitão de sangue doce que todo malandro tem, e a sua invejável inteligência. Seria um bom advogado. Apostei naquilo. Tinha uma memória atrevida, ágil e assimiladora. Um rapaz na dianteira dos seus colegas.

Muita vez penso eu, olhamos na maioria do tempo para aquilo que aparece na superfície das pessoas sem jamais compreendermos que nas suas profundezas existem capacidades e aptidões extraordinárias. Na minha experiência como professor no curso de Direito, aquele acadêmico me marcou. Nunca cheguei a compreendê-lo bem. Até mesmo pelo seu recato. Talvez fosse um impulso inconsciente de lealdade, ou a satisfação de uma dessas necessidades irônicas que se escondem nos fatos da existência humana.


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