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O Caminhoneiro...

26 Agosto 2018 12:00:00

foi preciso um caminhoneiro vir aqui para nos ensinar?

Carlos Homem


(Ilustração: Divulgação) 

Ele foi um excelente contador. Não gostava que o classificasse assim. Preferia dizer que era um técnico-contábil. Um profissional dos melhores que conheci nessa área. Também foi uma figura singular. Mas não era nessa atividade de "guarda-livros" que se sentia feliz. Sua vocação mesmo estava no volante de um caminhão. Tinha o tipo inconfundível de um caminhoneiro. Camisa aberta no peito, roupas bem simples, fala truncada, barriga saliente, barba sempre por fazer.   

Alternava tais atividades trabalhando mais ou menos um ano e meio a dois anos em cada uma. Tinha uma veia espirituosa que dava graça a flagrantes do cotidiano. Numa ocasião, ao lhe ser apresentada sob cobrança uma nota fiscal de serviços feitos no seu caminhão, disse ao proprietário da oficina: - Não vou pagar! O homem surpreso pela negativa quis saber o porquê. Ele então, pegando uma folha de papel e uma caneta, sentou ao lado da mesa e argumentou: - Veja bem! Se eu lhe pagar, o senhor vai sair daqui para ir trocar o cheque no banco. Vai furar o sinal e ser multado. Inconformado vai discutir com o guarda e nervoso vai falar besteiras. Será conduzido para a delegacia, tendo que ligar para um advogado. Nessas alturas toda a sua família já foi acionada. Sua pressão sanguínea vai disparar e um médico deverá ser acionado. Já imaginou quanto vai custar tudo isso? Melhor eu não lhe pagar que o senhor vai sair no lucro.  

Outra vez, chegando no Rio de Janeiro num sábado a tarde foi até a empresa destinatária da mercadoria que transportava para descarregar. Assim foi feito. No momento de receber o frete o gerente da empresa informou que ele teria que esperar até segunda-feira. Isso porque, segundo argumentou o gerente, a empresa não tinha na sua contabilidade a conta caixa. Não faziam nenhum pagamento em dinheiro. Só tinham conta bancos.

Tudo era pago com cheques. Uma norma que facilitava o controle e fiscalização. Ele com muita calma perguntou: - Mas o senhor tem dinheiro no cofre? Tenho. - Então vamos fazer o seguinte: O senhor emite um cheque nominal e cruzado no valor do frete, eu endosso o cheque, o senhor troca para mim e me dá o dinheiro. Eu vou embora! Na segunda-feira o senhor deposita esse mesmo cheque na conta da empresa. O cheque vai entrar como dinheiro na conta bancária porque tem fundos e sair o débito como pagamento.

O gerente ficou de queixo caído. Chamou o funcionário encarregado dos pagamentos, pediu que ouvisse o motorista. Daí perguntou: - Isso pode ser feito? Pode, respondeu o funcionário. O gerente já mostrando destempero, desabafou: - Quantas vezes tive essa dificuldade que nunca foi possível resolver? Foi preciso um caminhoneiro vir aqui para nos ensinar?


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