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MINHA LAVA-JATO

07 Janeiro 2018 17:35:00



Pois bem. Nestes dias de Lava-Jato onde se investigam falcatruas de todos os lados, cometidas por gente graúda, por cautela, vou desde já confessar meus delitos. Uma auto-delação de quem é apenas um mortal comum. Se vai ser premiada não sei. Daí, quando eu tinha dezesseis anos cometi o crime de falsidade ideológica adulterando minha idade. Isso na Carteirinha de Estudante.

Passei a ter dezoito anos e entrar nos cinemas para assistir filmes proibidos. Imaginem! Naqueles tempos havia filme impróprio, hoje todos os impróprios hediondos estão no celular à disposição das crianças. Mas eu também furtava muito. Não podia ver um pé de caqui no vizinho. Invadia a propriedade e enchia a camisa, fazendo dela uma sacola. Uva então, nem se fala! Gibis dos passageiros deixados nos bancos do trem eu aliviava geral.  

Tinha pilhas de gibis: Zorro, Capitão Marvel, Fantasma (este era o que eu mais gostava), Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Mandrake, e outros. No meu primeiro trabalho, ainda adolescente, como empalhador de cadeiras, eu saía da minha seção e ia surrupiar umas voltas de linguiça na do lado. Como eram gostosas depois de cozidas numa lata de banha usada e no fogo do setor de barricas. Um cúmplice meu aperfeiçoou a atração pelo alheio. Ficava de tocaia na esquina esperando o padeiro da carrocinha entrar nos bares entregando o pão e com agilidade de um gato pegava duas ou três bisnagas. Pão de padeiro com linguiça cozida! Que saudade!

Não tem Lava-Jato que possa entender a gula de um adolescente.

Entrar de ratão nos circos já era preciso maior audácia. Mas o misere forçava a mim e aos meus amigos achar o jeito.  

Sempre tinha uma forma de enganar a vigilância. Naqueles dias as meninas não eram tão assanhadas, e não havia celular para a gente se espichar. Aliás, o sexo não era assim tão fácil e explicito. Um dia furtei, com um pouco mais de atrevimento, um litro de uísque. Meu pai depois de me humilhar levando-me pendurado pelas orelhas e fazendo-me devolver o produto, ainda me lanhou as paletas com um rebenque. Foi de passar salmoura no lombo! Mas já o perdoei! Por isso entendo hoje esses delitos sociais e impunes.

Mulher que não está grávida furando a fila, velho que não tem sessenta anos pedindo atendimento prioritário, penso que são coisas piores do que aquelas que cometi. Sim, porque estas são cometidas por adultos. Os chamados espertos, que gostam de levar vantagem.            


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