35anos barrra.png
35anos barrra.png
  
CarlosHomem.jpg

Melhor invisível

15 Julho 2018 09:50:00


(Ilustração: Divulgação)


Uma dessas mulheres conhecidas por sacoleiras, entre tantas, saiu-se muito bem naquela atividade. Por ser muito boa vendedora e persuasiva, obtinha ótimos rendimentos no comércio de vendas a varejo e direto de roupas. Batia pernas o dia inteiro visitando suas clientes. Mantinha a família com um certo conforto. Diante da propaganda enganosa do governo, com a conversa de microempresário, do "simples" e outras enganações, resolveu sair da informalidade.

Alugou uma pequena sala e ali montou sua lojinha. Pronto. Deixou de ser invisível. Notaram a existência dela. Começou o seu inferno comercial. Toca registrar uma pessoa jurídica, pagar aluguel, água, luz, alvará de licença, taxas daqui, taxas dali, salário de uma funcionária com todos os encargos. Preencher formulários então era uma tortura! Mas, não parava só nisso. Eram visitas da vigilância sanitária, dos bombeiros, do Inmetro.

A mordeção não tinha mais fim. Contratou um profissional para fazer os seus registros contábeis, teve que mandar imprimir blocos de notas fiscais e adquirir um computador. Não aguentou seis meses. Voltou para a informalidade e entregou-se ao trabalho por meses a fio para recuperar o prejuízo.

Um outro cidadão, jamais havia feito declaração para o Imposto de Renda. Mas, uma advertência eventual, uma ameaça ocasional, uma notícia ruim sobre outros sonegadores o amedrontou.

Resolveu colocar sua vida em pratos limpos. Saiu da invisibilidade. Notaram a existência dele. Lascou-se. Nunca mais teve sossego. Não parou mais de pagar um imposto assustadoramente progressivo. São muitas as atividades informais desenvolvidas em ambientes domésticos. São doceiras, confeiteiras, costureiras, padeiros, artesãos, como também as vendedoras das coisas mais diversas que se possa imaginar, dentre tantas outras formas de ganhar a vida, ou ajudar no orçamento doméstico.

Mas só dão lucro se ficarem invisíveis aos olhos do fisco.

A sanha voraz dos governos é insaciável. Mesmo as empresas de médio, pequeno e grande porte se vêm forçadas a sonegar. Só assim conseguem sobreviver. Daí a reflexão, talvez absurda, de que sonegar neste país é um ato de legítima defesa. Isso leva as pessoas que querem ganhar um dinheirinho praticando um comércio ambulante, ou clandestino, a fugirem da formalidade. É muita burocracia dentro de uma parafernália de leis indecifráveis. Além do aspecto de que vivemos em dias onde o fiscal, seja de que competência legal for não tem nenhuma disposição para orientar.  

Pelo contrário, olha o empresário como bandido e o pune com notificações cruéis. Tá na lei? Ferro nele! Dificultam a produção daquele que é exatamente a fonte de recursos para pagamento dos seus salários. "Fere o ventre" teria dito Agripina, mãe do imperador romano Nero. Um paradoxo, mas é assim que se constata. Então, não há outra forma que não seja manter-se invisível.    


JORNAL "A SEMANA"
Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida
89520-000  -  Curitibanos/SC  -  (49) 3245-1711