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Bicho humano

15 Abril 2018 08:35:00

 No princípio só fiquei intrigado, depois com medo. Na enorme garagem coletiva do prédio onde guardo meu carro vivo sempre em alerta.

 É um lugar apropriado para atos de furtos ou assaltos. Muitas colunas e nichos diversos que possibilitam alguém por ali ocultar-se. Pois quando vi aquele bicho vir na minha direção, envolto em farrapos, cabelos e barba desgrenhados, sujo, com os olhos inexpressivos de um peixe morto e pupilas dilatadas, meu instinto de proteção despertou. Sim, aquilo não era uma figura humana.

 Era um animal abatido pela perda da autoestima. Segurava um cobertor velho e fedido enrolado nos ombros. Na cabeça, como se fosse um turbante, uma toalha encardida. Uma criatura sofrida que mostrava o corpo e a alma em frangalhos. Pediu-me, mais grunhindo do que falando, uns trocados.



"QUE HUMANIDADE CORROÍDA É ESTA

QUE JOGA NO LIXO SERES VIVENTES? "

 Expelia um mau cheiro horrível. O ser humano sem asseio é, seguramente, o bicho mais catinguento que perambula sobre a terra. Apressei-me, mais por temor do que por sentimento de caridade, em dar-lhe uns minguados. Ele nem escondia o cachimbo do craque pendurado no pescoço. Senti aquela náusea e vontade urgente de sair dali.

 Esses farrapos de gente, que apenas rastejam com as pernas, que perderam toda a identidade, que já nem são, que sobrevivem com a dignidade em pedaços, transformam-se em criaturas repulsivas que nos amedrontam. Perdemos até o sentimento de solidariedade e a vontade de ajudá-los. Preferimos até nem mesmo olhar para eles.

 Exibem uma visão negativa, uma ameaça de que podemos ficar iguais. Então nos protegemos procurando ignorá-los. Estragou meu dia! Não consegui afastá-lo do pensamento. Que humanidade corroída é esta que joga no lixo seres viventes? Como estender a mão para ajudar tais indigentes? Fiquei me punindo pelo sentimento de culpa. Só naquele dia, porém, porque no dia seguinte já o havia esquecido.


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