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A VERDADE

10 Dezembro 2017 11:18:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Em toda divergência ou conflito entre pessoas há sempre três versões. Uma para cada um dos divergentes, e a terceira, que seria a verdade, nunca vai se saber. Pois nos processos judiciais são quatro. Não arredo pé desta minha convicção.


Uma é a história do Requerente na inicial, outra é a do Requerido na defesa, e a terceira do Juiz na sentença. A quarta, ou seja, a verdade absoluta dos fatos, permanecerá oculta. Conto, ao sabor desta crença, um caso verídico.  


Fui defensor de um homicida, faz já muitos anos. Ele havia matado, com um único tiro, um desafeto seu, durante uma luta corporal onde reciprocamente se agrediam. O fato ocorreu no lugar denominado de Painel, comarca de Lages. O laudo médico pericial no processo informava que o projétil da arma tinha tido como orifício de entrada o lado esquerdo do pescoço, rente ao osso da clavícula, e de saída logo abaixo do umbigo.

 A bala transfixara todo o tronco da vítima, de cima para baixo. As testemunhas todas apenas informavam que ouviram um tiro enquanto acusado e vítima estavam agarrados, sem precisarem maiores detalhes. Me agarrei naquilo.

O réu, no seu depoimento disse que ao dar com o lado do revólver na cabeça da vítima, enquanto agarrados, a arma disparou. Claro que 'alguém' deve tê-lo instruído pra contar daquela forma. Me agarrei naquilo. Se não teve a intenção de atirar, não queria matar, mas defender-se. O homicídio não seria doloso.

Durante o júri, o Promotor de Justiça, um profissional aguerrido, já na réplica, valeu-se de todos os argumentos para destruir minha tese. Foi em vão. O meu cliente foi absolvido. Quando vi a decisão dos jurados imediatamente saí da sala e fui dar a boa notícia para o réu. Ele estava pilchado com rigor, calçando botas de cano longo e fino. Fora vestido para uma festa!

Ao me aproximar dele falei: - Olha companheiro, você foi absolvido. Terminou. Agora me conte certo como aquele tiro foi dado de cima para baixo? Ele esboçou um sorriso debochado e me olhando atrevido disse: "Vocês estão todos por fora, doutor! Eu "encepei" aquele desgraçado de baixo para cima. Me joguei no chão e mandei bala!". Então compreendi.

O médico que fez a necropsia havia se equivocado. Inverteu a entrada e saída da bala. A verdade, a verdade verdadeira (com perdão da redundância) estava oculta. Livrou o meu constituinte bandido da cadeia!


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