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A forquilha da água

22 Abril 2018 08:00:00

A natureza está mesmo cheia dessas coisas ocultas que basta um pouco de sensibilidade para se sentir e ver.

Carlos Homem

Na minha casa não tinha poço. Água encanada naqueles tempos era coisa de rico. Tínhamos que buscar com baldes nas casas vizinhas a água que consumíamos. Meu pai vivia falando que um dia ia cavar um poço ali pelos fundos. Eu duvidava. Um dia ele chegou em casa trazendo na sua companhia um homenzinho.

Seu "Zé da Forca", como era conhecido, tratava-se de uma criatura esmirradinha, de sorriso fácil e candura cabocla. Nada nele lembrava a imagem estereotipada dos místicos messiânicos ou dos lendários videntes bíblicos. A alcunha "Forca" não tinha nenhuma relação com o ritual suicida. Era apenas uma adaptação popular de forquilha, a ferramenta de trabalho dele. Viera ali para indicar o lugar exato onde devia ser feito o poço.

Menino ainda, já observava aquilo tudo com meus traços de incredulidade. Então, aquele homem pegou uma forquilha de pessegueiro com o formato da letra Y, segurou as duas pontas com as palmas das mãos para cima. Caminhou para um lado e outro com a ponta daquele galho direcionado pra frente até que ele se mexeu. Imaginei que se mexeu, porque não vi nada.

Pensei naquele momento que o homenzinho estava enganando a todos. Mas, como naqueles tempos meu nome de guri era só "cala a boca piá", fiquei quieto. Cavaram o poço no local indicado pelo perito atávico. Acharam mesmo água ali. Só depois de adulto e metido fui pesquisar o fenômeno. Era verdade.

Algumas pessoas possuem uma sensibilidade chamada de radiestesia que lhes permite sentir a energia de alguns elementos da natureza. Inclusive os veios da água subterrânea. Aquele homem tão simples não era um mago, adivinho, nem mensageiro do além.

Era apenas um ser profundamente sensível, apesar de analfabeto, mas capaz de interpretar os sinais que a natureza emite. A natureza está mesmo cheia dessas coisas ocultas que basta um pouco de sensibilidade para se sentir e ver.


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