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A abelha mirim

01 Julho 2018 07:00:00

'briguei com ela várias vezes para que não agredisse os bichinhos, mas não adiantou

Carlos Homem


(Foto: Divulgação) /


De vez em quando o pensamento da gente fica vagando por lembranças dos tempos de criança. Então, entre tantas reminiscências, a cada passo encontro nos escaninhos da memória as crendices obrigatórias que me eram impostas. Por desconhecer certos fenômenos científicos, a maioria de todos nós dá explicações sem sentido racional para algumas coisas. A cabeça do ser humano é uma lavoura fértil para plantar-se a fé no imponderável. Na minha casa acreditava-se que quebrar um espelho dava mesmo sete anos de azar, encontrar um trevo de quatro folhas era sinal de sorte, bater três vezes com os nós dos dedos numa madeira espantava coisas ruins, que o pio da coruja ou o uivo do cachorro era mau agouro. Uma lista sem fim.

Era Santo Antônio desencalhando moça solteira, verrugas nascendo nos dedos de quem apontava para as estrelas, muito cuidado para não trazer terra do cemitério nos sapatos para não correr o risco de morrer alguém da casa. Curava-se cobreiro, espinhela caída, erisipela, quebranto, mau-olhado e outros pequenos infortúnios com simples benzeduras. Práticas que até hoje permeiam nosso cotidiano onde se misturam o sagrado e o profano. Pois minha mãe, de origem açoriana, punha fé em tudo isso e muito mais. Uma infinidade de outras crendices populares. Pois bem. Depois de adulto fiquei cético, mas ela não.

Daí, na lateral do terreno da casa onde ela morava havia um muro construído com pedras justapostas. Numa das arestas, uma colmeia de abelhas mirins ali se instalou. Justamente no lugar onde mais se transitava. Como a laboriosa e inofensiva abelhinha ficava em enxames por ali esvoaçando, minha mãe implicou com os bichinhos. Ela arrancava o pito edificado com própolis e cerume, de cor amarelada e quase transparente, que era a via de acesso ao ninho. Aquilo é um canal genial da natureza, parecendo o "finger" sanfonado que permite embarcar nos grandes aviões. Briguei com ela várias vezes para que não agredisse os bichinhos, mas não adiantou.

Não queria aqueles insetos ali. Um dia, aproveitando a visita do meu irmão, pedi que ele mentisse para minha mãe, fingindo um espanto simulado e agradável ao ver ali as abelhinhas, dizendo a ela que a mirim trazia uma sorte danada para os lares onde construíam suas colmeias. Mas alertei-o para que ele não fizesse aquilo perto de mim. Se ela me olhasse nos olhos perceberia logo que era armação minha. Funcionou! Nunca mais molestou a família mirim.

A crença dela, como todas as crenças, fez com que passasse a acreditar na sorte ou nos bons fluídos que os animaizinhos trariam. Isso me faz lembrar, agora, da famosa frase de Henry Ford: "Se você acreditar que pode ou se acreditar que não pode, você está certo". Essas crenças atraem vibrações positivas. Ligam o estado emocional à realização daquilo que a pessoa acredita. Por isso funcionam.


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