Curitibanos,
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15 Abril 2018 08:35:00

 No princípio só fiquei intrigado, depois com medo. Na enorme garagem coletiva do prédio onde guardo meu carro vivo sempre em alerta.

 É um lugar apropriado para atos de furtos ou assaltos. Muitas colunas e nichos diversos que possibilitam alguém por ali ocultar-se. Pois quando vi aquele bicho vir na minha direção, envolto em farrapos, cabelos e barba desgrenhados, sujo, com os olhos inexpressivos de um peixe morto e pupilas dilatadas, meu instinto de proteção despertou. Sim, aquilo não era uma figura humana.

 Era um animal abatido pela perda da autoestima. Segurava um cobertor velho e fedido enrolado nos ombros. Na cabeça, como se fosse um turbante, uma toalha encardida. Uma criatura sofrida que mostrava o corpo e a alma em frangalhos. Pediu-me, mais grunhindo do que falando, uns trocados.



"QUE HUMANIDADE CORROÍDA É ESTA

QUE JOGA NO LIXO SERES VIVENTES? "

 Expelia um mau cheiro horrível. O ser humano sem asseio é, seguramente, o bicho mais catinguento que perambula sobre a terra. Apressei-me, mais por temor do que por sentimento de caridade, em dar-lhe uns minguados. Ele nem escondia o cachimbo do craque pendurado no pescoço. Senti aquela náusea e vontade urgente de sair dali.

 Esses farrapos de gente, que apenas rastejam com as pernas, que perderam toda a identidade, que já nem são, que sobrevivem com a dignidade em pedaços, transformam-se em criaturas repulsivas que nos amedrontam. Perdemos até o sentimento de solidariedade e a vontade de ajudá-los. Preferimos até nem mesmo olhar para eles.

 Exibem uma visão negativa, uma ameaça de que podemos ficar iguais. Então nos protegemos procurando ignorá-los. Estragou meu dia! Não consegui afastá-lo do pensamento. Que humanidade corroída é esta que joga no lixo seres viventes? Como estender a mão para ajudar tais indigentes? Fiquei me punindo pelo sentimento de culpa. Só naquele dia, porém, porque no dia seguinte já o havia esquecido.



07 Abril 2018 12:12:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Então, sem saber como, fui parar num planeta com as mesmas características da Terra. Foi uma surpresa! Tudo diferente.  

Um planeta que se encontra a apenas 4,2 anos-luz daqui. Quer isso dizer que viajando numa velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo, levaria apenas 4 anos e 2 meses pra chegar lá. Nem sei calcular uma distância dessas, mas eu estava lá. Daí, logo que cheguei quis dar aquela espiadinha compulsiva no meu celular para ver as últimas mensagens. Não tinha nenhum celular, nem sinal!

Um cara esquisito e feio chegou ali e sem falar me comunicou, por telepatia, que celular era uma coisa ali superada há milênios. Que sujeito besta, pensei! Não, disse ele, não sou besta, vivo num planeta milhões de anos de evolução em relação ao seu planeta terra. Me caiu o queixo! O cara lia até mesmo aquilo que eu pensava. Mas vocês aqui algum dia foram parecidos com os terrestres? Fomos, telepatizou ele.  

Então, como bastava pensar, continuei. Lá de onde vim, sou advogado. Aqui tem isso? Ele riu e me informou com um misto de deboche e ironia. Advogado? Aquilo que antigamente só servia para complicar? Que escrevia páginas e páginas para dizer um "não" e outras tantas para dizer um "sim"? Espera aí, cara! Retruquei. Na Terra somos necessários para que se faça justiça.

Ele deu uma baita gargalhada mental, já que ria sem fazer barulho numa forma estranha. Justiça? Sintonizou ele. Qual justiça? Aquela que um tal de Gilmar Mendes e seus iguais enfiam goela abaixo dos terrestres frouxos e acovardados? Aquela que solta bandido rico? Que pune o policial e idolatra o criminoso? Espera aí... ET atrevido! Mentalizei.  

Vocês também sabem a respeito do Gilmar & Cia? Claro, telegrafou ele. Coisa ruim contamina todo o universo! Daí, continuei: E como vocês fizeram para se livrar dessa espécie de beiçudos? Rindo pra dentro ele encerrou: É melhor nem comentar! Foi quando acordei. 



01 Abril 2018 00:00:00
Autor: Carlos Homem


Viralizou nas redes sociais domésticas, há poucos dias, um vídeo mostrando um dos nossos vereadores jurando fidelidade ao prefeito. Chegou a comparar o chefe do nosso executivo ao Rei Salomão. Vejam só! Na sua tresloucada fala, garantiu que se o prefeito errar, ele erra junto. Pode? Será que ele sabe, ainda que de forma superficial, o que significa a independência dos três poderes? A função fiscalizadora do legislativo? Que um edil, mesmo quando vencido numa controvérsia parlamentar, deve respeitar o princípio da colegialidade?

Tudo muda o tempo. Gosto desta frase do Padre Vieira dita há mais de um século. Uma conclusão óbvia, mas verdadeira. O mundo sempre mudou. Só que agora as coisas mudam muito rapidamente.

Os nossos políticos, agarrados nas facilidades que o poder permite, é que mudaram para pior.

Acomodam-se nas benesses públicas. Vão ser varridos pelo desencanto popular. O povo está na busca do novo e com rejeição da mesmice. Os velhos discursos repletos de clichês, e as mesmas figuras com rótulos desbotados já não cativam ninguém.

As massas estão conectadas. Não ficou nada fácil político enganar os eleitores com aquela conversinha fiada. A disseminação da mentira, embora seja da condição humana, agora é rapidamente anulada. Essas redes sociais são implacáveis. O Brasil quer novidade, quer lideranças novas. Há um sentimento de repulsa pelos conchavos, pelas coligações, pelos acomodamentos dos partidos políticos para garantir a reeleição dos mesmos.

Chega de subserviência. De membros do Poder Legislativo ficarem abanando a cola para o Executivo.

Nestes dias, caciques políticos não enganarão mais ninguém com promessas malufistas na base do "fui eu que fiz".

As mensagens terão que ser outras e novas. Nessa eleição que se próxima vamos ter a chance de mostrar como estamos politizados, tendo maior cautela na escolha dos candidatos.

Mas, voltando ao assunto do início, nosso Prefeito tem mostrado mesmo um ótimo tino administrativo salomônico. Claro, o Rei Salomão, considerado o rei da sabedoria, conseguia administrar setecentas sogras! Já imaginaram?



25 Março 2018 08:00:00
Autor: Carlos Homem

É tão bom sonhar com os olhos abertos

Assumi um compromisso comigo mesmo. Ficar rico! Faz bem mais de cinquenta anos que persigo essa meta. Claro que já estou convencido, depois de tanta luta, que não vencerei essa batalha só com o trabalho.

Quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro, diz um ditado estúpido. Também não quero correr nenhum risco de optar por rendas ilícitas. Já não tenho mais idade para curtir uma janela quadriculada. Não sou, nem por adesão cômoda, ou encosto, herdeiro de alguma fortuna.

Herdeiro de nada, pra falar a verdade! Esse papo de herdeiro do futuro é conversa fiada. Resta então por fé na sorte. Aposto direto na megasena. A possibilidade é uma entre cinquenta milhões. Mas acredito! É tão bom sonhar com os olhos abertos.

Colecionar dinheiro nunca foi meu forte. Outras coleções, em tempos idos, como aquelas de figurinhas, bolinhas de gude, gibis, selos, até que obtive um certo sucesso. Mas notas de 100 reais são muito raras. Não é nada fácil colecioná-las. Escapam pelos vãos dos dedos da gente, as desgraçadas!

 Fico, amiúde, imaginando se rico tem problemas. Deve ter aos montes. Será que o dinheiro consegue manter os problemas da gente bem longe? Noites mal dormidas, desafios, jornadas intermináveis de trabalho, conflitos familiares, incertezas e medos não são também problemas dos ricos? Pela lógica, acredito que sim.

Pode ser até que, em razão da riqueza, seus problemas sejam mais e maiores. Olhando de fora, tenho a impressão que rico ganha fácil, que não trabalha, que pra ele tudo corre favorável, que todas as portas se abrem de graça. Será? Dizem que a maioria dos ricos sofre da chamada "peniafobia".

Uma doença que se caracteriza pelo medo irracional da pobreza ou de ficar pobre. Quem sofre dessa doença tem tremores, suor frio, dor de cabeça, náuseas, tonturas, síndrome do pânico, etc. Tá louco, cara! Se for pra sofrer desse jeito porque tem dinheiro, melhor seria não tê-lo. Não é verdade?

Mas eu quero ter. E muito! Nem que precise tomar um punhado de sedativos a cada passo. Dinheiro é uma coisa que eu gosto muito! Prefiro sofrer com ele! Vou continuar perseguindo meu compromisso de ficar rico. Muito rico!



18 Março 2018 10:23:00


Não sei bem se é uma visão caolha minha. Mas tenho a nítida impressão de que os estudantes universitários de hoje ainda vivem como adolescentes. Tem alguma coisa fora dos eixos acontecendo nas escolas privadas. Não preparam o aluno para ser adulto.

Escola nenhuma quer saber de dar ao estudante uma formação humanista. A preocupação é com o faturamento. O lugar ocupado pela escola nos exames do Enem ou de alguns vestibulares é que conta ponto. É o motivo de publicidade, de outdoors, de muita divulgação.

Isso é chamarisco para mais alunos, maior faturamento e renda. E os pais participam dessa forma de ensino conteudista. Uma considerável parcela da nossa sociedade ainda tem a crença de que o sucesso dos seus filhos no futuro depende desse tipo de ensino.

Penso aqui na minha limitada interpretação, de que nada adianta termos profissionais com excelente capacidade técnica, mas com deficiente formação humanista. Pois, sendo assim, é evidente que eles não saberão colaborar para que o mundo melhore. Por quê? Por que a vida é vivida sempre em sociedade.  

Não podemos esquecer-nos disso. Mas, que espécie de formação humanista uma escola pode oferecer aos seus alunos? Elementar. Ensinar a exercitar a tolerância, a ter sensibilidade para perceber como suas atitudes podem afetar o colega, a ser respeitoso com as pessoas diferentes daquelas com quem estão acostumados a conviver, a ter compaixão, a ser solidário, entre um monte de outras coisas. Entristeço-me quando observo entre jovens estudantes um clima de isolamento, de individualismo, de egocentrismo.

Não podemos querer para os nossos filhos só o sucesso financeiro e prestígio social. É preciso que eles melhorem este mundo de isolacionismo humano, cada dia mais acentuado.



10 Março 2018 14:15:00

O tempo transforma criminosos em heróis

Fazia já um bom tempo que não via. Um rapaz vestindo uma camiseta com a cara do Che Guevara nela estampada. Aquela famosa foto que imortalizou Alberto Korda, fotógrafo cubano que foi super feliz na captação daquele flagrante histórico.  

Registrou um olhar distante e ensimesmado do revolucionário no momento em que ele se encontrava emcima de um palanque de comício. Fotografia bem tirada é também uma questão de sorte. Não basta só profissionalismo. Nos tempos em que as máquinas ainda tinham filmes eu era um desastre quando me arriscava em bater uma foto. Na revelação sempre aparecia uma imagem desfocada, cortada, tremida, sombreada, o diabo.

Hoje, com tantas facilidades colocadas à minha disposição, como também de todos, me arrisco mais. Tiro uma, dez ou cinquenta. Tá muito fácil. Não precisa nem enquadrar. Uma mirada rápida e clic, clic. Pronto. Virou um passatempo barato. Só não tiro selfie porque acho uma atitude narcisista. Mas não é sobre fotografias que desejo falar. Saí do foco de novo! Quero lembrar do Guevara. Fazem o quê? Cinquenta anos que morreu? Nunca entendi o porque de tanta veneração, em quase todo o mundo, principalmente dos jovens, dedicada a um bandido tão sanguinário.  

O culto ao ódio, a excitação pelo cheiro de sangue, a admiração pelo revolucionário que adorava matar sem piedade. Os fuzilamentos que ele mesmo comandou e os que ordenou, hoje são ostentados como medalhas no peito de um general. Guevara sentia prazer na morte dos seus adversários, que não eram seus inimigos. Os ataques de asma no médico e guerrilheiro argentino o deixavam enfurecido. Matar talvez o acalmasse.

Difícil entender sua sobrevivência como símbolo. Já nem falo de adolescentes retardados que nem conhecem a história de Guevara. Nem dos homossexuais que idolatram um criminoso que os odiava. O que me intriga são os intelectuais que conhecem o currículo de Che Guevara e o canonizam sem qualquer cerimônia. Um desequilíbrio dentro do equilíbrio? O tempo transforma criminosos em heróis. Será que a violência tem uma atração que não sabemos explicar? Seja lá como for, não consigo entender essa idolatria maluca por um criminoso histórico.       


04 Março 2018 10:40:00


(Foto: Divulgação)


Tá bom, me curvo! Não farei mais aquele discurso de que antigamente as coisas eram melhores. Chega de saudosismos!

Não argumentarei mais, de jeito nenhum, que a simples visão de umas pernas cruzadas sob um vestido discreto despertava muito mais desejo que as ver expostas e nuas nestes dias. Nem direi que esses decotes generosos mostrando os seios como laranjas de amostra me deixa sem saber para que lado olhar. Morro de medo que me chamem de tarado, assanhado, indiscreto, secador, essas coisas! Não vou mais achar um absurdo que as meninas destes tempos é que estão bolinando os guris. Só me resta ficar conjeturando! Tenham cuidados! Advertem hoje as mães apreensivas aos filhos imberbes. Estou me convencendo que são coisas normais. A iniciativa deve mesmo ser delas.

Não, não me escandalizarei quando uma menina estiver beijando outra na boca de forma apaixonada. Vou olhar para o outro lado e fingir que não vejo. Afinal, isso é, ou deve ser natural! Quanto a um homem beijando outro já é mais difícil. Derruba toda uma tradição masculina. Agride a minha quadrada, tosca e sucateada formação. Mas não quero ser rotulado de homofóbico. Vou engolir seco! A frescura virou epidemia. Os gays que deviam ser discretos estão afrontando. Quem fica com vergonha é quem não é do ramo.

Ninguém respeita mais ninguém. Estamos com medo de tudo. De falar, de rir, de discordar, de escrever.

Vivemos num elevado grau de insensatez. A questão central é só uma: podemos exigir que o mundo nos compreenda? Acredito até que ser incompreendido tem também suas vantagens.

A maior parte das pessoas têm consciência da sua própria parvice. Daí para serem moderninhas consideram 'muito massa' aquilo que não conseguem compreender. Por isso vou ficar calado daqui para a frente. Que sodomizem os costumes, que ridicularizem o recato, que escancarem e banalizem o sexo, vou achar tudo legal. Aquele discursinho cafona de que 'no meu tempo' era melhor, que havia mais romantismo, não farei mais.

Daqui pra frente homem casar com homem e mulher com mulher não me causará nenhuma espécie. Cada um é dono da sua vida, da sua individualidade, da sua sexualidade, do seu desencanto pela vida. Vou abraçar essas afirmativas e esses chavões hipócritas que estão no domínio do público. Essa baboseira do politicamente correto.

Cultura e inteligência que permaneçam engavetadas e abram espaço para o botox a o silicone.

A aparência é o que importa. Ela é fundamental para disfarçar a burrice de uma geração sem perspectiva. E estúpida!


25 Fevereiro 2018 08:00:00
Autor: Carlos Homem

Só restava aceitar o seu jeitão de sangue doce que todo malandro tem

O folgado entrava sempre quando a aula já havia começado. Muitas vezes até mesmo no meio delas. Nunca trazia um livro consigo. Sequer uma folha de caderno mal arrancada. Nem um toco de lápis, pra não falar de caneta o malandro levava. Cabulava também com muita frequência. Como professor marquei a figura. Fiz um "X" na testa dele. Fiquei aguardando o dia da primeira prova mensal.

Queria dar, como sempre dei, uma atenção toda especial para a dele. Minha intenção era fazê-lo ver que a coisa não podia ser assim tão flauteada. Não lhe cabia o direito de ser tão displicente. Chegou a oportunidade! Durante a prova fiquei disfarçadamente o tempo todo de olho naquela figura. Mas não vi nada. Abaixou a cabeça e mandou ver. Nem olhava para os lados. Terminou antes que todos.

Quando saiu da sala, peguei a prova e dei uma corrida rápida de olhos sobre ela. Estava, à primeira vista, quase que inteiramente correta! Que diabos, pensei! Esse desgraçado é mais ligeiro do que imagino. Deve ter uma técnica toda especial para colar.

Em casa, enquanto corrigia, não tive como não lhe dar um nove. Foi uma das melhores notas daquela prova. E ele continuou folgado. No segundo mês, no momento em que acabei de entregar as folhas da prova mensal, devagarinho fui caminhando pela sala e me postei próximo das costas dele. Hoje não me escapa! Cuidei até para ver se não havia algum ponto eletrônico nas suas orelhas.

Pois não vi nada de novo. Escreveu fluentemente, parecendo até estar com pressa, alheio a tudo e a todos, terminou entre os primeiros, levantou, colocou a folha sobre a mesa, e se mandou. Outra nota excelente. E assim foi todo o semestre. Eu, da fase do espanto passei para a da admiração e desta para a da inveja. Ele era assim mesmo. Aquilo era dele. Estava credenciado para ser indolente. Só restava aceitar o seu jeitão de sangue doce que todo malandro tem, e a sua invejável inteligência. Seria um bom advogado. Apostei naquilo. Tinha uma memória atrevida, ágil e assimiladora. Um rapaz na dianteira dos seus colegas.

Muita vez penso eu, olhamos na maioria do tempo para aquilo que aparece na superfície das pessoas sem jamais compreendermos que nas suas profundezas existem capacidades e aptidões extraordinárias. Na minha experiência como professor no curso de Direito, aquele acadêmico me marcou. Nunca cheguei a compreendê-lo bem. Até mesmo pelo seu recato. Talvez fosse um impulso inconsciente de lealdade, ou a satisfação de uma dessas necessidades irônicas que se escondem nos fatos da existência humana.



18 Fevereiro 2018 09:00:00


Frei Eliseu, de quem sou amigo, está próximo dos seus 92 anos. Liga-me de vez em quando. Com tal longeva vida, é invejável a lucidez e a agilidade do seu raciocínio. Semana passada disse-me pelo telefone que ainda tem a esperança de me ver convertido.Manifestou-me o seu desejo de que eu, a exemplo de Paulo, o ApóstoIo, descubra uma fé para nortear minha vida. Achei graça! Respeito a imensidão da sua crença como ele respeita a inexistência das minhas.

Querer acreditar é também uma opção de vida que não busco. Com humor retruquei ao meu amigo sacerdote que para minha conversão seriam necessários dois acontecimentos iguais aos de Saulo de Tarso, antes dele virar Paulo: Cair do cavalo e percorrer a estrada para Damasco. Brinquei com ele. Não sei montar e não tenho vontade de conhecer a capital da Síria. Ainda mais nestes dias! Depois daquela conversa fiquei encasquetando umas coisinhas malucas: E se eu fizesse meditação? Uma meditação transcendental. Daquelas que faz derreter egos e superegos. Mas logo eu? Sou do tipo que arrumo encrenca porque debocho da homeopatia, dos trololós esotéricos, das simpatias e sortilégios.

Eu? Que tiro sarro desses videntes, astrólogos, quiromantes, e outros embusteiros? Que me rolo de rir "das coisas feitas", dos "olhos gordos", dos "maus olhados", dos "agouros" das "pragas de putas", dos "milagreiros televisivos". Mas religião não tem nada a ver com isso tudo. Não? Qualquer crença que resolva, ou prometa resolver nossa inhaca espiritual ou conflitos interiores não é religião? Então, quem sabe, a alternativa está na meditação. Esta sim não é religião. Não precisa ter fé, nem reza, nem incenso.

Daí, vou sentar sobre as minhas pernas dobradas, arrumar as mãos como se estivesse orando, mesmo que doa o cóccix, e ficar por horas pensando só em coisas boas como se fora um Buda magro, versão curitibanense. Embora já seja careca, não vou ficar pelado e me enrolar numa manta amarela. Daí também já seria demais!Dizem que o ideal é não pensarem nada, ficar naquele transe que denominam de "zen". Mas não vai ser fácil ficar sem lembrar do saldo negativo do banco, dos boletos vencidos, do IPTU que aumentou, dos talões de água e luz. Não tem "zen" que pague essas desgraceiras todas!

Aí, depois de trinta minutos em estado de relaxamento, como se fosse num sono profundo, vou despertar calmo, aliviado, pronto para me azucrinar de novo até a próxima sessão. Sei, sei que buscar um sentido para a vida com tais pensamentos me faz um idiota e imbecil. Porém garanto. Posso montar num porco, mas não caio de cavalo!



11 Fevereiro 2018 09:10:36

Mensagens lindas, filosofias perfeitas, exemplos edificantes de vidas, frases lapidares, ensinamentos profundos, lições de auto ajuda, religiões que confortam, orientações para uma alimentação correta, formas e exercícios para dores disto ou daquilo, dietas das mais esdrúxulas, remédios e receitas caseiras que não têm fim.  

Recebemos isso tudo pelo WhatsApp, Facebook, televisão e outras vias eletrônicas a todo o momento. Só que após apertar o botãzinho do "tá visto", não se aproveita nada na quase totalidade das vezes. Achamos legal, mas não usamos nem seguimos nada. No dia seguinte já nem lembramos. Esquecemos voluntariamente. No máximo enviamos aos amigos dizendo "veja que legal"! Algumas pessoas tentam seguir esta ou aquela dica, fazer uma ou outra dieta, praticar uma modalidade ou outra de exercícios. Mas é fogo de palha! Ninguém tem persistência.

Somos todos, por natureza, uma espécie de animal acomodada. Tudo que depender de esforço ou determinação deixamos para depois. Que se dane o médico quando nos orienta a não comer muita carne à noite. Quem pode resistir uma costela pingando gordura na brasa? Pouco importa se a cerveja engorda e deixa barrigudo. Como não tomar uma cervejinha gelada numa roda de amigos? Ou num dia de calor? Ou umas doses mais etílicas num baile? O álcool é um desinibidor apelativo para muitas coisas. Então, num mundo que tudo converge para se viver curtindo o aqui e o agora, quem vai lembrar das mensagens recebidas? Daí, protelamos tudo para segunda-feira.

Juramos que a partir da segunda-feira vamos caminhar todo dia pelo menos meia hora. Porém, fica tudo na intenção. Por isso que a obesidade é a regra geral e os consultórios estão sempre cheios. Temos plena consciência de que a forma como levamos a vida está cheia de erros, que pode ser fatal. Mas e daí? A desculpa é sempre a mesma: temos que aproveitar a vida enquanto dá! Se no domingo posso dormir mais, por que vou perder tempo indo na missa para rezar? E nos cultos então, onde só pedem dinheiro? Será que a vida daqueles que escrevem livros de auto ajuda, dando fórmulas para ficar rico de uma hora para outra, para ser eficiente no trabalho e tolerante com o chefe, é mesmo como ensinam? Imaginar procedimentos eficientes é bem diferente de praticá-los.

Vivemos em pecado. Essa é a verdade. Alheios a tudo que nos exija dedicação e trabalho. Queremos só aquilo que nos dá prazer. Na verdade, não há como evitar os pecados da gula, da ganância, da preguiça, da luxúria. O que a vida tem mesmo de bom é o pecado! O pecado é doce! Não se consegue viver sem ele!



04 Fevereiro 2018 13:38:00


(Foto: Divulgação)


Tá me assaltando uma dúvida. É aquela famosa pulguinha atrás da orelha! Será mesmo que o Lula vai pro xilindró? Justiça neste país, infelizmente, não é muito eficiente contra peixe graúdo. Os ilustres Ministros do Supremo ouve-se comentários, vão achar aquele "jeitinho brasileiro" (também é corrupção), pra livrar o Lula. Vão desmoralizar o juiz Sérgio Moro, e com ele os três Desembargadores do TRF-4.

Vai ser de aumentar o nojo! Então, me perdoem, mas quero ir embora.

Vou morar na Bolívia. Aqui, neste país onde um tal de João Pedro Stedile, líder do MST Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, tem o desplante e o atrevimento de dizer que se prenderem o Lula ele bota seu exército na rua, que chama um juiz de "merdinha" e de "bundão" e ninguém faz nada, é porque não existe mais nenhuma autoridade. Nem ordem! Desculpem-me, vou morar um pouco mais longe. Vou me mudar para a Venezuela! Neste Brasil onde uma senadora (Gleise Hogffmann), acusada e respondendo processo junto com seu marido por afundarem as mãos nos cofres públicos, chama sob céu aberto o juiz Sergio Moro de covarde e nada acontece com ela, nada mais podemos esperar.

Vou-me embora para mais longe, vou pra Cuba! Numa nação onde um senador (Lindbergh Farias) convoca a população para uma rebelião com "desobediência civil" para defender seu aiatolá petista, sugerindo vomitar na frente do Tribunal e não se nota nenhuma reação de autoridades, é porque estamos mortos. Vou-me embora. Pra bem mais longe. Vou para a Coréia do Norte. Não quero nem saber! Nesta terra descoberta por Cabral, onde um indivíduo chamado Guilherme Boulos, coordenador do MTST (sem tetos) tem a arrogância de convocar desocupados para "tomarem as ruas" numa demonstração de apoio ao seu pai político, não dá pra aceitar.

 E o malandro quer ser candidato à Presidência da República! Vou-me embora para mais longe ainda. Vou residir no Zimbábue ou na Tailândia! Mas, dirão alguns poucos que me leem, esses países todos estão sob regime ditatorial. E daí? Pelo menos se lá não posso abrir o bico, esses vagabundos aí de cima também não! Em nenhum desses países aí vou ver uma guerra urbana como a do Rio de Janeiro, comandada por bandidos e traficantes diante de um governo desarmado, tolerante e indeciso. Nem passeatas com bandeiras vermelhas feitas por vadios, parasitas, e protestantes de aluguel!



28 Janeiro 2018 09:31:00
Autor: Carlos Homem

Se eu pudesse, convenceria nossos governantes que o problema deste país é só a falta de educação


(Foto: Divulgação)/


Se eu pudesse, neste ano, não permitiria que nenhum político que já é, seja de novo; se eu pudesse, mostraria para todos que aplicar a justiça aos poderosos não é nenhuma perseguição; se eu pudesse, exigiria mais canto e voz da Anitta do que exibição do seu corpo e do seu apelo à lascívia com esnobação da bunda; se eu pudesse, optar entre a voz do PablloVittar e o latido do meu cachorro, seria óbvia a minha escolha; se eu pudesse voltar no tempo, aconselharia Cabral (o do descobrimento) a mudar de rota; se eu pudesse, colocaria atrás das grades todos esses pseudos pastores picaretas da mídia.

Se eu pudesse voltaria o tempo em que o pai mandava no filho, professor, no aluno, polícia, no bandido, patrão, no empregado, contribuinte no funcionário; se eu pudesse, obrigaria os bancos a ter pelo menos dez caixas nos dias de pique; se eu pudesse, acabaria com a preferência dos idosos e das grávidas, porque velhice não é incapacidade, nem gravidez é doença; se eu pudesse, mudaria a cor da febre amarela para a vermelha com estrelinha e tudo, já que a bagunça continua assemelhada.

Se eu pudesse, diria ao Luciano Huck que a nação brasileira não é picadeiro de circo e que ele se contente com a Angélica que já tá de bom tamanho; se eu pudesse, editaria a lei da ficha suja, porque com ficha limpa não vai aparecer ninguém pra ser candidato; se eu pudesse, reduziria pra sete ou cinco o número dos nossos vereadores, porque treze é um absurdo; se eu pudesse, convenceria nossos governantes que o problema deste país é só a falta de educação; se eu pudesse... Ha! Se eu pudesse... desmancharia pelo menos a metade das lombadas das nossas ruas;.

Se eu pudesse, ensinaria os estudantes a desfilarem em linha reta (elementar), sem necessidade de pintar um trilho branco como guia no leito das ruas; se eu pudesse (estou plagiando), obrigaria vacinar os macacos contra a febre amarela evitando correria e pânico dos humanos; se eu pudesse, proibiria alguns amigos de falar das pessoas, mas permitiria que falassem sobre as pessoas; se eu pudesse, reduziria a idade penal para quatorze anos, pois quem nessa idade sabe fazer filhos já pode ser responsabilizado pela prática de crime. Por derradeiro, se eu pudesse, daria uma festa para os três Desembargadores da 8ª Turma do TRF4!



21 Janeiro 2018 10:03:00

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(Foto: Ilustração/Divulgação)

Tem gente defendendo relacionamento aberto, tem um monte de gente patrocinando a causa ou direitos de garotos e garotas de programa, gays, trans, homossexuais, mães solteiras, polivalentes, hermafroditas, entendidos, assexuados, homoafetivos, indefinidos e indecisos em geral. Mas afinal de contas, o que é que temos com isso? O que fazem ou deixam de fazer essa gente com seus corpos não é problema nosso. Ou é? Que mania é essa de ficarmos incomodados com a maneira de ser e das preferências dos outros?  

Se os humanos moderninhos destes dias se sentem felizes com sua sexualidade, praticando-a na horizontal ou vertical, na tradicional ou multifacetada, é opção privativa. Agora, que tá virado numa zona esse "andaço", tá! Para cada dez mensagens recebidas nas redes sociais, nove são de sacanagem. Mas, temos que calar a boca! Qualquer inconformismo com os exageros praticados podemos ser enquadrados como caretas, homofóbicos, discriminadores.

"ESTAMOS, NA VERDADE, PERDIDOS E INDIFERENTES"

O "direito das minorias" é um tribunal em pleno vigor e corremos o risco dele nos queimar numa fogueira! Liberou geral, como dizem. Os mais idosos, conservadores, se escandalizam: "Uma pouca vergonha", resmungam. Que tempos em que vivemos? Homem tem medo de dizer que é macho e mulher tá com vergonha de ser feminina. Os filhos, quem sabe, em razão do pai ser muitas vezes autoritário e mãe submissa, resolvem afrontar tudo e a todos, com atos comportamentais que fogem do natural. Escandalizam! Querem ser diferentes, livres. Mas, queiramos ou não, nos sentimos agredidos. Causa desconforto para a moral que nos foi incubada pelas religiões, e estas, seculares, superadas, mercenárias, prescritas e caolhas, estão sempre ameaçando os costumes com essa bobagem do castigo eterno.  

Estamos, na verdade, perdidos e indiferentes. "Cada um faça o que quiser!". É um lema que solapa as bases de qualquer tentativa de se por o trem da intimidade nos trilhos. Como efeito prático desse lema, as questões familiares estão cada vez mais solicitando a proteção do juiz ou mesmo do médico, porque os pais, vencidos, já não possuem nenhuma autoridade dentro de casa. Para onde estamos indo? A sexualidade divorciada da afetividade, a confusão entre sexo e gênero, a recusa do dado parental, o império da subjetividade, o domínio da publicidade pornográfica na mídia, a promiscuidade nas relações sexuais, a precocidade das crianças em imitar os adultos. Tudo conduz para a banalização do sexo!



14 Janeiro 2018 08:22:00

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(FOTO: DIVULGAÇÃO)


Um, entre os meus centenas de milhares de leitores, gostando da crônica que escrevi sob o título de proprietário rural, sugeriu-me outra daquele gênero. Apontou o pedreiro como mote. Então vamos lá: Você, meu amigo, que perde tempo lendo estas minhas bobagens, com certeza já fez alguma reforma em sua casa. Ainda que pequena, mas fez.    

Um ritual macabro. Um exercício de paciência e assumida tolice. Ninguém escapa da grande maioria dos prestadores de serviços avulsos, em especial do pedreiro. Começa com um orçamento que não chega nem perto da verdade. Eles simulam uma previsão bem pequena sabendo que não vai ser possível. Apenas engatam o trouxa. "Se vai custar tão pouco, então vou fazer", pensamos. Depois de fisgado, com o anzol no céu da boca, e com a obra em andamento, não tem como escapar. Um inferno!

Daí surgem os pedidos constantes de adiantamentos. Uma hora é porque a mulher tá doente, outra porque tem que pagar a pensão atrasada, outra mais porque um parente próximo foi vítima de acidente. E o serviço não anda. Se você, na boa fé, cai na besteira de adiantar, de pouco em pouco, mais de 50% daquilo que foi tratado, tá lascado! O desgraçado já começa a gazetear. Some. Você tem que correr atrás do amaldiçoado! Muitas vezes eles já pegam outras empreitadas paralelas, onde conseguem fazer vales mais gordos como entrada. Laçam outro bocó! E lá vêm as justificativas do fedapata:

Que se perdeu no preço, que aquilo que estava fazendo não foi tratado, que sem mais dinheiro por conta não consegue manter a família. Tudo igual! A vontade da gente é decapitar o morfético. E ficam atrevidos! Forçam a barra pra gente perder a paciência e brigar. Pronto. É o que eles querem. Se fazem de ofendidos e não cumprem mais o combinado. Abandonam a obra. O que fazer então? Nada. Os sem-vergonhas ameaçam com ação trabalhista e o diabo a quatro. O pior é que entre a palavra desses morcegos e a da gente, sempre presumem que a verdade é dele.

O coitadinho sempre tem razão! Tá virado numa zorra este país com essa frescura de garantir os direitos das minorias, quando na verdade os velhacos é que são a maioria. A solução melhor, nesses momentos, é dizer pros malandros que metam o dinheiro que nos tomaram, bem enrolado e bem vasilinado, naquele sítio que ele sabem muito bem qual é.



07 Janeiro 2018 17:35:00

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Pois bem. Nestes dias de Lava-Jato onde se investigam falcatruas de todos os lados, cometidas por gente graúda, por cautela, vou desde já confessar meus delitos. Uma auto-delação de quem é apenas um mortal comum. Se vai ser premiada não sei. Daí, quando eu tinha dezesseis anos cometi o crime de falsidade ideológica adulterando minha idade. Isso na Carteirinha de Estudante.

Passei a ter dezoito anos e entrar nos cinemas para assistir filmes proibidos. Imaginem! Naqueles tempos havia filme impróprio, hoje todos os impróprios hediondos estão no celular à disposição das crianças. Mas eu também furtava muito. Não podia ver um pé de caqui no vizinho. Invadia a propriedade e enchia a camisa, fazendo dela uma sacola. Uva então, nem se fala! Gibis dos passageiros deixados nos bancos do trem eu aliviava geral.  

Tinha pilhas de gibis: Zorro, Capitão Marvel, Fantasma (este era o que eu mais gostava), Roy Rogers, Hopalong Cassidy, Mandrake, e outros. No meu primeiro trabalho, ainda adolescente, como empalhador de cadeiras, eu saía da minha seção e ia surrupiar umas voltas de linguiça na do lado. Como eram gostosas depois de cozidas numa lata de banha usada e no fogo do setor de barricas. Um cúmplice meu aperfeiçoou a atração pelo alheio. Ficava de tocaia na esquina esperando o padeiro da carrocinha entrar nos bares entregando o pão e com agilidade de um gato pegava duas ou três bisnagas. Pão de padeiro com linguiça cozida! Que saudade!

Não tem Lava-Jato que possa entender a gula de um adolescente.

Entrar de ratão nos circos já era preciso maior audácia. Mas o misere forçava a mim e aos meus amigos achar o jeito.  

Sempre tinha uma forma de enganar a vigilância. Naqueles dias as meninas não eram tão assanhadas, e não havia celular para a gente se espichar. Aliás, o sexo não era assim tão fácil e explicito. Um dia furtei, com um pouco mais de atrevimento, um litro de uísque. Meu pai depois de me humilhar levando-me pendurado pelas orelhas e fazendo-me devolver o produto, ainda me lanhou as paletas com um rebenque. Foi de passar salmoura no lombo! Mas já o perdoei! Por isso entendo hoje esses delitos sociais e impunes.

Mulher que não está grávida furando a fila, velho que não tem sessenta anos pedindo atendimento prioritário, penso que são coisas piores do que aquelas que cometi. Sim, porque estas são cometidas por adultos. Os chamados espertos, que gostam de levar vantagem.            



10 Dezembro 2017 11:18:00

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(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Em toda divergência ou conflito entre pessoas há sempre três versões. Uma para cada um dos divergentes, e a terceira, que seria a verdade, nunca vai se saber. Pois nos processos judiciais são quatro. Não arredo pé desta minha convicção.


Uma é a história do Requerente na inicial, outra é a do Requerido na defesa, e a terceira do Juiz na sentença. A quarta, ou seja, a verdade absoluta dos fatos, permanecerá oculta. Conto, ao sabor desta crença, um caso verídico.  


Fui defensor de um homicida, faz já muitos anos. Ele havia matado, com um único tiro, um desafeto seu, durante uma luta corporal onde reciprocamente se agrediam. O fato ocorreu no lugar denominado de Painel, comarca de Lages. O laudo médico pericial no processo informava que o projétil da arma tinha tido como orifício de entrada o lado esquerdo do pescoço, rente ao osso da clavícula, e de saída logo abaixo do umbigo.

 A bala transfixara todo o tronco da vítima, de cima para baixo. As testemunhas todas apenas informavam que ouviram um tiro enquanto acusado e vítima estavam agarrados, sem precisarem maiores detalhes. Me agarrei naquilo.

O réu, no seu depoimento disse que ao dar com o lado do revólver na cabeça da vítima, enquanto agarrados, a arma disparou. Claro que 'alguém' deve tê-lo instruído pra contar daquela forma. Me agarrei naquilo. Se não teve a intenção de atirar, não queria matar, mas defender-se. O homicídio não seria doloso.

Durante o júri, o Promotor de Justiça, um profissional aguerrido, já na réplica, valeu-se de todos os argumentos para destruir minha tese. Foi em vão. O meu cliente foi absolvido. Quando vi a decisão dos jurados imediatamente saí da sala e fui dar a boa notícia para o réu. Ele estava pilchado com rigor, calçando botas de cano longo e fino. Fora vestido para uma festa!

Ao me aproximar dele falei: - Olha companheiro, você foi absolvido. Terminou. Agora me conte certo como aquele tiro foi dado de cima para baixo? Ele esboçou um sorriso debochado e me olhando atrevido disse: "Vocês estão todos por fora, doutor! Eu "encepei" aquele desgraçado de baixo para cima. Me joguei no chão e mandei bala!". Então compreendi.

O médico que fez a necropsia havia se equivocado. Inverteu a entrada e saída da bala. A verdade, a verdade verdadeira (com perdão da redundância) estava oculta. Livrou o meu constituinte bandido da cadeia!



26 Novembro 2017 19:19:00
Autor: Carlos Homem

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(Foto: Divulgação)

Conheci um menino craque. Habilidoso mesmo! Precoce do futebol! Salvo a ausência dos requisitos da experiência e do preparo profissional, ele havia nascido com jeito para a coisa.

Jogar futebol não é para todos os que querem, mas para os poucos que nascem com o dom. Ginga de corpo, pirraça nos dribles, elegância no domínio da bola, visão antecipada da jogada, conduzir e chutar com os dois pés são atributos natos, nunca adquiridos. Aquele menino nasceu com tudo isso. Ele tinha quinze anos quando o conheci. 

 Aquela idade onde o adolescente vive um misto de insegurança e atrevimento ao mesmo tempo. Pensa que sabe tudo, mas não sabe absolutamente nada. Tolos é que são! Era um menino negro e pobre. A raça negra tem mesmo essa facilidade para o esporte. Trazem no gene.  

Foi preciso um atleta negro nas olimpíadas de 1936, realizada na Alemanha,

para provar ao Hitler, todo poderoso e racista, que a supremacia

da raça ariana não passava de uma farsa.

Foram quatro medalhas de ouro faturadas pelo herói, humilhando o ditador. Pois o moleque de quem lembro, logo, logo, foi encaminhado para uma divisão de base de um clube famoso. 

Ele passou a fazer parte de uma minoria eleita para ter sucesso sem necessitar de uma educação formal. Seus modos grosseiros e uma cultura mínima não lhe faziam falta, até então. Teve naquele esporte, relativo e meteórico sucesso. Mas a vida tem suas ironias diárias.  

Não são todos os meninos bons de bola que conseguem chegar ao futebol profissional. Então, por razões que desconheço, ele ficou pelas bordas dos times grandes, caiu para clubes menores e acabou em timecos do interior.  

A desilusão tomou conta dele. A fama, seja no futebol, na música, nas artes, ou em qualquer atividade humana é um funil por onde poucos passam. Por mera coincidência encontrei-o muitos anos depois de tê-lo conhecido. Estava gordo, inchado pela bebida, os olhos tristes.  

Na face estampava o amargor da derrota. Trazia na alma o peso do fracasso. Aquele garoto cheio de alegria e vontade de viver tinha sido vitimado pela ilusão. O caminho para vencer na vida de forma fácil e sem trabalho é lotérico. Poucos são os que conseguem. Mas são muitos os que ficam pela estrada!


18 Novembro 2017 23:00:00

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(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Na região Sul do país todos me conhecem. Faço-me mais presente no Inverno. Depois me esquecem por uns tempos. Quando digo meu nome "Pin", imediatamente vem a pergunta: De origem chinesa? Não, sou brasileiro legítimo, respondo. Mais brasileiro do que nossos índios! Meu sobrenome é "Heiro".  

Esquisito, não é? Pin Heiro é meu nome todo. Minha família não veio de nenhuma parte do mundo, nasceu aqui. Minha árvore genealógica, assim como minha estrutura mesmo, é uma mistura curiosa. Meus antepassados, por parte de pai eram dos araucas, e por parte de mãe dos riáceas. Formaram o tronco das araucariáceas. Mais conhecida por araucária brasileira. Depois, com os cruzamentos normais de toda a espécie viva, o casamento dos angusti com os fólia, acabou por formar as angustifólias.

Razão exata de algumas das minhas partes serem tão diferentes, assim como são minhas folhas. Quando jovem tenho o formato de um cone, já adulto pareço com uma taça. Família conhecidíssima a minha! Araucária angustifólia! Nome que não só parece nobre, sou nobre! Deixei milhares de pessoas ricas onde habitei com maior densidade.


A maioria delas abandonou o lugar onde eu vicejava depois de me explorarem sem qualquer critério, ou piedade.


Era tão grande minha população que pensaram que nunca me extinguiriam. Fui serrado, queimado, vendido, exportado, destruído. Estive no centro, e fui a causa de grandes conflitos sociais como também de questões judiciais. Nunca porque tivessem interesse na minha preservação, mas sempre para terem o direito de me derrubar.

Minha madeira foi desejada por todos os países durante décadas. Agora sou uma espécie rara. Minha semente está valendo mais do que o meu tronco. Muitos ainda confundem a pinha, que é o meu fruto, com o pinhão, que é a minha semente. Com o surgimento de organizações preocupadas com a ecologia, e dentro delas com a conservação das matas, não fui totalmente eliminado. Apareceram leis que pretendem me proteger.

Com o valor nutritivo, energético, e muito apreciado da minha semente, somados ao preço alcançado no mercado, estou mais uma vez ameaçado. Derrubam meus frutos e minhas sementes ainda verdes. Não respeitam sequer as épocas da minha maturação natural. Quebram meus galhos, arrancam minhas acículas. Multiplicam-se os mercadores repetindo um velho ritual que já conheço. Sou milenar e já vi quase tudo, por isso ainda tenho a esperança que respeitem o meu direito de viver.



12 Novembro 2017 17:26:00
Autor: Carlos Homem

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Até que ponto a franqueza e a espontaneidade podem ser manifestadas? Será indelicado dizer-se exatamente aquilo que se pensa? É falta de educação quando externamos opinião sincera, ainda que desagrade?

Quando jovem briguei muito com minha mãe por esse motivo. Logo eu que nunca fui sutil. Ela não queria nem saber. Dizia sem floreios aquilo que pensava. Numa ocasião, num jantar que meu irmão ofereceu para dois diretores da Shell, minha mãe perguntou, com total simplicidade, para as duas jovens esposas deles, se elas eram as "empregadinhas" da minha cunhada. Eu queria morrer quando vi a expressão no rosto daquelas sofisticadas madames.

Quando na nossa casa chegava uma visita, o tratamento de cortesia era invejável. Mas, só até uma altura. Se a visita não se tocasse, demorando muito, minha mãe dizia: - Olha querida, a visita já tá boa, já tomamos café, agora vai pra tua casa, vai! Assim, direto, sem dourar a pílula. Eu ficava possesso! Pedia que pelo amor de Deus ela não me fizesse pagar mico daquela natureza.

Ela ria e perguntava: - Falei alguma coisa de mais? Ofendi alguém, por acaso?

Numa certa ocasião, em razão da sua idade e já meio adoentada, meu pai trouxe uma menina moça de fora, filha de um conhecido seu, para cuidar da minha mãe. Não deu certo. A guria não tinha qualquer aptidão para aquela empreitada. Então, aproveitando uma viagem de recreação que fiz para o litoral, levei meu pai, minha mãe e a moça para devolvê-la à sua família que morava em Rio do Sul. Quando lá chegamos a mãe da garota perguntou: - Então, gostou do serviço da minha filha? Eu, que já estava de atalaia, gritei: - MÃÃÃEEE!!! Não deu tempo. Minha mãe abusou da franqueza na cara das duas: - ÍÍÍh...querida! Ela é muito preguiçosa! Relaxada que só vendo!

Eu quis estrangular minha mãe. Naquele momento eu ia praticar dolosamente um matricídio não fosse a interferência do meu pai. Ela defendeu-se: - Cale a boca aí, tanso! Eu só disse a verdade, bobão! É bem assim! Quando mais estuda mais trouxa fica!

Penso, agora, se ela não estava certa. Conviver significa falsidades e aparências? Devo dizer, por sociabilidade, que é lindo aquilo que acho feio? É grosseria, falta de educação, dizer que não gostei? De não dar parabéns se entender que a pessoa não merece?Afinal, porque não se pode ser honesto consigo mesmo?


29 Outubro 2017 13:01:00

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A mente tem poder e força 



Fui ao banco. Sabia que teria de enfrentar aquelas máquinas diabólicas.São projetadas para mostrar o tamanho da burrice da gente.Então, pra não pagar mico levei minha colinha. Nessas horas,parece um azar, mas sempre tem nas costas da gente um abelhudo conferindo.

Tinha tudo naquela cola: número da conta, senha com seis dígitos, senha com oito dígitos, senha com letras, senha com números, data de nascimento, nome da minha mãe. Mesmo assim, depois de me atrapalhar uma bastantada consegui imprimirum extrato da minha conta. Conferi com desânimo.

Na frente dos algarismos do saldo tinha aquele sinalzinho (-) que odeio! Eta risquinho maldito! Vive me perseguindo! Desconfio que seja uma invenção do PT! Em seguida, fui trabalhar com aquele gostinho que a pobreza dá. Lembrei então daquele cara que entortava talheres só com a força do pensamento. Era um israelita chamado Uri não sei do quê.

Fazia até relógio velho voltar a funcionar só com o pensamento.Será que se eu também me concentrasse,direcionando toda a energia do meu cérebro e mais as vibrações positivas de todo o universo, aquele sinalzinho negativo não poderia ser transformado em positivo? Afinal, (-)para ser (+), basta fazer um risquinho vertical no meio, não é verdade?

Coloquei o extrato na minha frente e fechei os olhos.Juntei os três dedos polegar, indicador e médio de cada mão e pressionei minhas têmporas. Respirei lenta e profundamente uma porção de vezes. Abri os olhos e nada! O sinalzinho negativo tava lá!Não desanimei. Tudo se torna mais fácil com a prática. A mente tem poder e força. O segredo, nestes momentos, é dispensar pensamentos desnecessários. Limpar a cabeça de coisas ruins. Não lembrar de coisas estúpidas. Afinal de contas nem tudo é karma!

Fechei os olhos um monte de vezes e tentei não pensar em nada. Tudo em vão! Sempre tinha um pensamento besta ocupando o espaço da minha concentração.Não pensar é mais difícil que pensar! Fiquei ali, invocando o poder do pensamento positivo com todas as técnicas que conheço.Puxa! Eu não queria entortar garfos, facas, nem desenguiçar relógios sucatas. Só queria que o menos (-) virasse mais (+) na minha conta bancária. Coisa pouca! Não consegui. Joguei fora meus livros de autoajuda. Retornei ao trabalho.



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