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Despertai

19 Maio 2018 09:13:00


(Foto: Ivan Pacheco/VEJA)


É que, estamos a viver um período sui generis da malfadada história brasileira. Vejamos: Em tempos de dantes, a Copa do Mundo de Futebol tinha o condão e poder de nos absorver de tal maneira que todo o resto se tornava meio que secundário. Por interesses mais que conhecidos, a emissora de televisão detentora dos direitos sobre a Seleção Brasileira, como de resto sobre todo o futebol brasileiro, desde o ano passado vem pulsiando-nos, com mensagens diretas ou subliminares para nos colocar no clima. Que esperança.

Na segunda-feira que passou, o técnico Tite publicou a lista de jogadores a serem inscritos no mundial da Rússia. Ah pois, em outros tempos tal anúncio galvanizava a nação. Suscitava as maiores discussões, aprovações e desaprovações, o torcedor fazia peneira de malha muito fina em cima, ou em baixo, de cada nome, aprovando ou desaprovando acaloradamente. Mesas de bar, rodas de café e aperitivos a abrigarem as centenas ou milhares de técnicos, discussões acaloradas, não raro tendência de vias de fato, troca de pontapés e sopapos tamanha a veemência com que cada qual defendia seus preferidos ou detraia um ou uns que constavam da chamada oficial. Pois e agora? Quase nada, pouco muito pouco ante o que está para acontecer.

Copa do Mundo era evento esperado tanto quanto o nascimento de um filho. Este moreno escriba pública jamais teve a pretensão, por menor que seja, em arvorar-se de psicólogo, conhecedor de comportamento humano, meandros da psique, o tal inconsciente coletivo e outras finuras tais que dizem ser ciência. Então somos limitados ao mero observar do comportamento humano e tirar, talvez, errôneas, conclusões.

Penso que a maré de desânimo que nos domina, e que nem a Copa do Mundo afasta, é por conta do quadro geral desolador que nos domina.

O desencanto é tamanho que nada consegue vencer. É como se nos escondêssemos em uma redoma qualquer, em escura caverna, e nos recusamos a absorver mais do que vem ou está lá fora. O abatimento do espírito, o abandonar da combatividade, a letargia ou o psicológico anestésico do cérebro que se recusa a absorver mais. Que se passa conosco? É o estarrecimento diante do quadro dantesco posto diante de nossos olhos. Ao repente, personalidades, autoridades da mais alta ressonância e coturnos são colocados diante de sisudos delegados de polícia e, sem a maior cerimônia ou deferência, interrogados como qualquer mero ladrão de galinhas.

Não estamos, óbvio, defendendo deferências e rapapés, pois tal não merecem e se igualam exatamente ao mencionado ladrão de galinhas. Sabedores que estamos dos incontabilhões de reais, dólares e euros sorvetidos em um lamaçal escuro enquanto assistimos a falta de melhores serviços na Saúde, Educação de qualidade, serviços públicos de primeira, compromissos dos governantes com os governados, o cabal e integral cumprimento do juramento solene pronunciado na investidura ou posse. Gente que até admirávamos, tínhamos como patriotas, zelosos homens públicos, agora desnudados como ladrões, canalhas e patifes. Na paralela, até exatamente por conta da roubalheira desenfreada, o avanço das quadrilhas, a violência a deplorar vidas como frangos em um abatedouro. Tudo isto, penso, é a razão pela nossa sisudez, pela falta de empolgação e ânimo como as coisas, como o futebol e a Seleção Canarinho. Meu estimado e (im)paciente leitor franze o cenho e diz que ainda estamos traumatizados pelo 7X1 e agora vemos tudo com o pé atrás. Pode, pois aquele placar nunca existiu nem em nossos piores pesadelos e se ao invés da Alemanha fosse a Argentina o planeta testemunharia o maior suicídio coletivo que jamais existiu. Creio que quando a bola rolar lá nos gramados soviéticos nós despertaremos e voltaremos a ter a atenção e carinho com os nossos craques. Já a política e os políticos...não sei.

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