Curitibanos,
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22 Maio 2018 13:32:00
Autor: Katia Zilio


(Imagem: Divulgação) /


A exemplo do que vemos todos os dias por aí, quero refletir, hoje, leitor, sobre como alguém é ouvido... 

É, leitor, ouvido. Talvez escutado... Sim porque em muitas ocasiões as pessoas falam e não são ouvidas, ou não se dá a atenção para elas.

Pense, leitor, você já não foi a uma reunião seja de condomínio, de moradores do bairro ou até mesmo na escola, onde havia possibilidade de opinar de se manifestar com a palavra e algumas pessoas fizeram isso?

Nessa mesma reunião, talvez em momento mais caloroso de discussão ou de levantamento de ideias, você deve ter percebido, mesmo que rapidamente, que algumas pessoas ao falar pareciam fazer com que muitas ouvissem realmente o que era dito, enquanto outras não tinham a mesma sorte.

Isso não é uma questão de sorte, e sim de cetro da palavra, para usar uma expressão cunhada por Bourdieu, um sociólogo francês que apresenta em sua teoria a explicação sobre isso.

Nesse texto, a exemplo de Bourdieu, gostaria de pensar o motivo de sermos ou não escutados quando falamos. Há ocasiões que o sucesso daquilo que vamos dizer depende da quantidade de ouvintes que nos dão atenção... Não gostamos de falar para as paredes! Lembra, leitor, desse ditado?

 Não gostamos de falar para ninguém, ou melhor, para que ninguém ouça.

Ser ouvido é, pois, um objetivo a ser perseguido pelo ser humano. Falamos para ser ouvidos.

As relações sociais são influenciadas pelos jogos de linguagem... As nossas falas são influenciadas pelo que somos e pelo que representamos, no lugar onde vivemos.

Por isso, é possível que sejamos ouvidos por aqui, onde nos conhecem e ignorados em um lugar onde somos apenas mais um.

A questão que fica é queremos ser alguém para ser ouvido? A Armadilha reflete que ser ouvido é também responsabilidade para com o outro e para com a representação que os outros tem de nós.

Fica então o impasse: Ser ouvido, ou não?



15 Maio 2018 13:32:00


(Foto: Divulgação)

Sabe, leitor, às vezes, fico pensando como podemos ser mais humanos a partir da língua.

O dizer e o sentir estão, para mim, intimamente ligados...

Quando nos solidarizamos com alguém é como se sentíssemos o que a pessoa a nosso lado sente. Fazer isso é um exercício de alteridade... E como exercício, precisa ser feito e refeito, até fazer parte de nós.

Exercer a alteridade para com os outros é uma possibilidade de melhorar o mundo.

Sabe aquele ditado: "Não faça aos outros o que não quer que façam a você"?

Ou ainda: "Faça aos outros aquilo que deseja que seja feito para você"?

A variação do ditado não nos impede de encontrar o sentido daquilo que entendemos por alteridade. Por isso exercitar o sentimento do outro é importante para nos tornarmos mais humanos.

Ao nascer somos um filhote mamífero, indefeso. Somos da raça humana, ou ainda, somos seres humanos, mas ainda não somos e fomos humanizados.

Precisamos, ao longo da vida nos tornarmos humanos, ou humanizados.

Como nos tornamos humanos?

Pela educação, pelo conhecimento das coisas e pelo relacionamento com o mundo.

Pelas artes, pelo estremecer e enternecer diante do belo e do feio, seja pela obra plástica ou pela ativação da memória em linguagem fílmica.

Explico melhor: quando choramos diante de uma cena de um filme, estamos vivenciando a cena, exercício de alteridade. Ao nos colocarmos no lugar da personagem, tentamos, a partir da memória, compreender os sentimentos evocados na cena.

 Podemos pensar na cena do filme "O menino do pijama listrado" quando o menino troca de roupa para experienciar o que o outro vivia. Você lembra, leitor? E fica triste?

Pensar no outro é um exercício não só do dizer, mas também do sentir. É pensar experenciando que nos torna mais humanos.

A Armadilha não deseja capturar as feras de cada um, mas os humanos que desejamos nos tornar.



08 Maio 2018 10:48:00
Autor: Katia Zilio

Quando elaboramos o que vamos dizer, seja de forma mais descompromissada com o rigor da norma padrão ou na adequação do discurso, às vezes nos deparamos com a conjugação de verbos que nos parecem iguais. 

E isso é verdade, muitas vezes é o contexto que nos auxilia a corresponder o verbo ao seu tempo verbal.

Olhemos o exemplo abaixo:



Um exemplo disso é atira acima, pois o verbo vender e ver são o tema da pequena história. Afinal, vendo o pôr do sol é ver ou vender? 

Outro exemplo é AMAMOS/ FALAMOS ou outros verbos da primeira conjugação que apresentam a mesma forma para o presente e para o pretérito perfeito. 

Então:

Nós amamos o verão...

Amamos ontem ou hoje? É presente ou pretérito? Isso vai depender do contexto.

Outras vezes é somente um acento que diferencia o tempo verbal.

Ele amara sua esposa desde o princípio.

Ele amará sua esposa sempre.

O primeiro verbo está conjugado no Pretérito-mais-que perfeito e o segundo, no Futuro do Presente.

E verbo se fez carne... E o verbo se fez texto... E, no texto, é o verbo que sempre colabora com os sentidos que desejamos, mesmo que às vezes ainda tenhamos dúvidas sobre seu uso.

E a armadilha fez do verbo a sua carne, não é?



24 Abril 2018 14:51:00
Autor: Katia Zilio



Caro leitor, sempre há o que perguntar quando se trata da língua... 

O tema deste texto envolve dúvida quanto ao verbo perder e o substantivo correspondente. As palavras "perca" e "perda" apresentam grafia e pronúncia semelhantes. Por este motivo, o uso de "perda e perca", em muitos momentos, pode ser confuso...

Então vamos a eles:

PERDA é um substantivo, significa se privar (desapossar, excluir) de alguém ou de algo que se tinha. Deve vir acompanhado de algum determinante:

Algumas perdas a indústria sempre têm. Já falaram de muitas perdas nesse semestre.

Isso é uma perda de tempo!

Sinto muito por sua perda!

Então, leitor, percebeu que sempre há uma palavra antes de perda que a determina: algumas uma, muitas...

É ainda possível dizer que perda é um substantivo por admitir o artigo "a": A PERDA.

Por isso não é possível utilizar perda como um verbo... Aí que entra o PERCA...

PERCA - é uma forma verbal, ou seja, flexão do verbo "perder".

Não perca essa oportunidade.

Não desejo que ele perca essa chance!

Não perca a esperança...

Usualmente há frases como: Não quero que ele perda a esperança, ou assistir a esse filme é perca de tempo. Mas não perca, leitor, a esperança... A armadilha da Língua não é perda de tempo... Nunca é perda... Sempre é ganho...



20 Março 2018 14:00:00
Autor: Katia Zilio

Em tempos de internet e, principalmente de WhatsApp, recebemos muitas mensagens codificadas. 

O digitar apressado e a leitura menos cuidadosa têm feito muitos reféns de mensagens apagadas...

Em muitas situações, o dispositivo eletrônico nos oferece palavras que sequer diríamos quando em um encontro presencial.

As relações humanas foram simplificadas?

Talvez podemos dizer que a comunicação instantânea nos ajuda no trabalho e nos encontros e compromissos do dia-a-dia, porém é inegável que, para algumas pessoas, o uso do instrumento eletrônico facilita pequenos entraves pessoais...

Finalizar uma relação amorosa ou resolver desentendimento via WhatsApp já é uma realidade. É verdade que isso nos parece estranho... As relações não são descartáveis como as mensagens com as quais nos enganamos ... As relações são humanas e precisam de cuidados...


Como diria ou cantaria Kid Abelha:

Depois de você

Os outros são os outros e só

Depois de você

Os outros são os outros e só


Os outros são os outros, mas você, ah seria bom usar a língua para a empatia: Faça para os outros o que querem que te façam...

Escreva com cuidado.

Use o que quer dizer pensando em si e nos outros.

Quem lê? O que lê? De que forma posso ser mais claro (a)?

E o corretor?

Que seja mais um instrumento, mas que não substitua aquele que escreve a mensagem.

A Armadilha é pensar que a culpa é do corretor, não há culpa.

Somente há a falta de empatia...



06 Março 2018 08:40:57
Autor: Katia Zilio

O texto de hoje, leitor, quer refletir o que podemos fazer quando nos deparamos com verbos que parecem esquisitos quando os conjugamos... Para este texto conto com a contribuição da Eduarda Christina Schuhmann, aluna do Colégio Maria Imaculada, cursando o segundo ano do ensino médio.  

Vários são os verbos que, na nossa língua, não podem ser conjugados em todos os tempos ou pessoas verbais.

Falir, doer, reaver, abolir, banir, colorir, explodir, feder... O que todos esses verbos têm em comum? A falta de conjugações em alguns tempos, modos ou pessoas é o que classifica verbos como esses como defectivos.

A sonoridade e a forma de escrita não usuais são algumas das razões para esses verbos não existirem em todas as conjunções verbais. Outros motivos como causarem equívocos com outros verbos ou desenvolverem conotações pejorativas também fazem com que não sejam aceitas pela norma padrão da língua portuguesa. Um exemplo disso é o verbo polir que quando usado no presente do modo indicativo se assemelha ao verbo pular: eu pulo o carro. Há uma ambiguidade no uso do vocábulo o que nos remete a evitá-lo ou a substituí-lo. Ou ainda eu falo... É falir ou falar?

Para suprir a ausência de flexões do verbo, podemos empregar um sinônimo - eu recupero (para reaver) - ou uma forma equivalente - eu consigo reaver.

No entanto, a nossa língua é viva, e está em constante mudança e adaptações nas normas padrão e aceitação das conjugações desses verbos podem acontecer.

A Armadilha é mais do que saber... É entender o porquê...



28 Fevereiro 2018 19:12:00
Autor: Katia Zilio

O texto de hoje faz uma abordagem sobre os porquês, tema que sempre provoca dúvidas, principalmente quando desejamos escrever essa palavra. Sim, escrever, pois na fala não há como perceber se está separado ou leva acento.

Minha convidada, que reparte as discussões, é a aluna do Colégio Maria Imaculada, Emanuelle Ferreira, também interessada em entender os porquês.

É comum em nossas situações diárias entrarmos em contato com a dúvida de qual dos porquês podemos usar em uma pergunta, ou para uma resposta, ou até mesmo para apontar o motivo de algo que queremos explicar.

 Separado e sem acento, usado para introduzir uma frase interrogativa ou substituir "por qual razão/ por qual motivo". A pergunta pode ser direta, isto é, aquela que usa o ponto de interrogação, como no primeiro exemplo. Ainda podemos usar separado para perguntas indiretas, aquelas em que não há ponto de interrogação, mas se constituem perguntas, como é o caso do segundo exemplo.

"Por que demorou tanto na consulta?"

"Não sei por que ela veio."

Já quando queremos explicar, não é separado, mas escrito junto e não possui sem acento, nesse caso há uma explicação da razão, e poderia ser substituído pela conjunção "pois".

 "Demorei porque o médico precisou se ausentar por alguns minutos."

Separado e com acento, sempre aparece no final de uma frase, antecedendo um ponto.

"Você parece estar chateado. Por quê?"

Junto e com acento, temos aqui um substantivo acompanhado por um artigo, podendo ser substituído por "o motivo/a razão".

"Eles nunca me falaram o porquê da discussão."


(Ilustração: Alexandre Beck)

Agora ficou mais fácil não sair por aí caindo na Armadilha dos porquês!



20 Fevereiro 2018 11:10:00
Autor: Katia Zilio


(Foto: Divulgação) /


Este texto, hoje, quer discutir o uso do pronome átono, ou melhor, o seu não uso e suas consequências para a língua. Isso, claro, pensando em quem pensa sobre a língua, como é o caso da minha convidada deste texto, a aluna Natália Platchek de Medeiros, do segundo ano do Colégio Maria Imaculada.   

No português falado informalmente quase não existe o uso de pronomes oblíquos no lugar de pronomes átonos. Quando queremos dizer, por exemplo, que vamos buscar uma criança na escola é comum ouvirmos: vou buscar ela... Em vez de vou buscá-la. No Brasil, o uso desses pronomes encontra muita resistência.

Embora o uso de "eu vi ele", "eu vi ela" esteja mais do que sacramentado na linguagem coloquial brasileira, a regra gramatical do português padrão estabelece que o pronome pessoal do caso reto "eu" atrai o outro pronome.

 Ainda podemos dizer que a pessoa envolvida na conversa pode entender "vi ela" como uma rua estreita. Além disso, vale destacar que "ele", também pronome pessoal do caso reto, não pode vir após o verbo.

Então quando usamos: buscar ela, ver ele, escutei ela, etc, podemos nos fazer compreender, mas o uso do pronome átono evita equívocos... Segundo o padrão formal da língua, o correto é usar pronomes pessoais do caso oblíquo: "eu o vi" ou "eu a vi". Ou, ainda, vi-o, vi-a por aqui todos os dias... E pensando no duplo sentido... vi-a pode ser entendida como via? Como resolver isso? O uso do bom senso e a alteridade pode ajudar, isto é, colocar-se no lugar do outro a fim de tentar entender o que é dito, por outro ângulo, é sempre salutar...

A Armadilha entra pelas vielas da língua, talvez para dizer que ela é viva e intrigante...



13 Fevereiro 2018 10:17:00

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(Imagem: Ilustração)

O retorno de férias é sempre um período que nos deixa letárgicos...

Este ano, escreverei acompanhada de alunos que também curtem pensar a língua. Minha primeira convidada para dividiR esta coluna é Mariarita da Silva, aluna do segundo ano do Colégio Maria Imaculada.

A dúvida que se apresenta é: Você vai VIM ou você vai VIR?

Na hora de chamar alguém para ir até a sua casa, surge a questão: VIM ou VIR?

- Joana, você pode vir até minha casa hoje para fazermos o trabalho de química?

Nas locuções verbais (dois verbos juntos: um auxiliar e outro principal), os verbos principais sempre devem aparecer no infinitivo, no caso, terminados com R.

Isso é fácil quando usamos outra locução verbal...

Quando usamos, por exemplo: vamos viajar, foi pescar, pode sair...

Por isso, sabemos que a forma correta de chamar Joana é com VIR e não com VIM.

 Mas então, quando será que usamos a segunda opção?

VIM é o passado do verbo VIR, na primeira pessoa do indicativo. Portanto, ao chegar até o destino, Joana pode concluir:

- Eu vim de carro, por isso cheguei rápido.

A Armadilha veio para ficar... Queremos que você venha nos fazer companhia...

Vai vir? Poderá você dizera frase célebre de Julio Cesar (47 a. C.): Vim, vi, venci... Do latim Veni, vidi, vici.

Quem sabe?



27 Novembro 2017 23:01:00


(Foto: Divulgação)

Em tempos de concursos e vestibulares é comum ouvirmos a frase: "deu branco".

Essa expressão quer informar que a mente, no momento de sacar a resposta para alguma questão, ficou em branco como uma folha de papel que ainda não foi escrita.

Isso pode ocorrer com qualquer pessoa em situações as mais diversas possíveis...

Explico:

Numa entrevista de emprego...

Numa prova na escola ou em um concurso...

Numa conversa com alguém, que não nos é íntimo...

Isso acontece por quê?

A entrevista exige que falemos em um vocabulário que, muitas vezes, não é aquele que usamos cotidianamente.

A prova pode exigir respostas, as quais revelam que não estudamos o suficiente ou, ainda, respostas que são complexas e exigem concentração redobrada.

A conversa com pessoas que não são do nosso círculo de amizade requer um vocabulário mais apurado e, consequentemente, uma performance adequada àquele com quem falamos.

Mas o que fazer quando o branco vem?

Costumo dizer aos alunos que se deu branco, pinta...

Respirar fundo e refletir sobre o que se quer dizer, o que viu, ouviu e o que sabe ajuda bastante.

Sabemos que não sabemos tudo... E isso nem é possível...

Mas fazer o possível dentro de nossas capacidades e ter a certeza de que o que fizemos foi o máximo para aquele momento, faz-nos tranquilizar a consciência...

Porque a Armadilha está por aí... E a ela vamos todos...



07 Novembro 2017 08:40:15

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Embora o título deste texto convidar para um nome (LOLA) e avó em italiano (NONA), o que nos motiva algumas linhas aqui é o uso dos pronomes O e A que se transformam em LO e LA e em NO e NA, de acordo com algumas condições.

O uso desses pronomes oblíquos ocorre quando precisamos substituir complementos verbais ou nominais a fim, muitas vezes, de evitar a repetição.

A regra não é difícil, mas o uso na oralidade não é corrente; já na escrita, essa utilização é até esperada.

Então:

Convide ela para a festa (ela ?).

Convide-A para a festa.

A combinação O e A com o verbo conjugado é simples:

Convide-A

Abrace-O

Pegue-A

Rasgue-O

Já o uso de LO e LA depende de o verbo terminar em R, S e Z.

Portanto:

Vou buscar ela... Vou buscá-LA.

Amá-LA

Abraçá-LO

Quis o brinquedo. Qui-LO

Fez o exercício. Fê-LO

Apesar de soar estranha algumas combinações propostas aqui, são elas que favorecem o texto escrito (sim, porque na oralidade é mais do que estranha, às vezes é até pedante).

E o NO e o NA?

Esse uso é mais fácil, pois é estabelecido pelo som nasal no final do verbo.

Responderam a pergunta. Responderam-NA.

Lavaram-NO.

Língua e Armadilha: Amá-las para entendê-las...

Amaram-nas?



30 Outubro 2017 23:00:00
Autor: Katia Zilio

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(Foto: Divulgação)

Para entender alguns aspectos da concordância verbal e nominal é importante responder a questão do título... Vendem-se ou vende-se... Como usar?

Alugar, vender, elaborar, entregar, etc. são alguns verbos que admitem a partícula SE. Essa palavra pode assumir várias facetas e apresentar uma grande diversidade de funções. Abordaremos aqui algumas delas.

Olha aí:

O SE pode ser um pronome reflexivo (que reflete a pessoa que fala - assim como o espelho que é o reflexo de quem para ele olha).

Assim: o carpinteiro feriu-se com o martelo.

(o carpinteiro feriu a si mesmo).

Ela se deu um belo presente.

(ela deu a si própria um belo presente).

No entanto, quando dizemos:

 Eles abraçaram-se com respeito.

Ambos se abraçaram - é uma ação recíproca.

Carlos e Salete beijaram-se no salão.

Os dois sujeitos (Carlos e Salete) fizeram a ação em si e no outro, por isso denominamos recíproca.

Mas e os ovos? Usa-se vendem-se ou vende-se?

Calma, leitor, estamos chegando lá. Antes é bom saber que o SE pode ainda ser uma partícula expletiva ou de realce. Isto é: pode ser usado para inferir valor simbólico, não estabelecendo relação de necessidade com algum termo da oração. É um recurso de estilo, não sendo essencial à compreensão da mensagem. É utilizada como realce. Então podemos dizer:

 Os convidados foram-se embora ao amanhecer (ou foram embora).

E os ovos? Vamos a eles.

Vendem-se ovos é a frase gramaticalmente correta. É claro que se dissermos vende-se ovos, vende-se casas, os ouvintes nos entenderão, mas em uma placa indicativa fazer o plural é elegante (além de correto).

Quando se pode pluralizar?

É necessário fazer o plural do verbo quando obtemos a voz passiva: o SE é, também, um pronome apassivador e marca a voz passiva sintética.

 Vejamos:

Vendem-se ovos (voz passiva sintética).

Ovos são vendidos (voz passiva analítica).

O verbo combinará com o sujeito paciente. Por isso:

Elaboraram-se, durante esse governo, bons planejamentos sociais.

Bons planejamentos sociais foram elaborados durante esse governo.

Destruíram-se as bases de uma sociedade igualitária.

As bases de uma sociedade igualitária foram destruídas.

Repare, leitor, que não há uso de preposição depois do verbo, pois se isso acontecer o SE transforma-se em índice de sujeito indeterminado.

Então:

Precisa-se de novos funcionários e não precisam-se...

O verbo admite a preposição, logo não permite ser apassivado nem pode ser pluralizado.

E aí, vendeu a ideia, leitor?

Venderam-se ideias.

Vendeu-se ideia.

Você comprou?



17 Outubro 2017 06:44:00
Autor: Katia Zilio

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Atendendo pedidos, vai aí mais um texto sobre o gerúndio...

Você já deve ter ouvido falar de uma epidemia que assola os ouvidos mais atentos:

VAMOS ESTAR FAZENDO...

VAMOS ESTAR LIGANDO...

PODEMOS ESTAR VENDO...

Essa epidemia verborrágica ou hemorragia de verbos pouco significa realmente, guarda a possibilidade do acontecer do vir a ser.

 Gerúndio é uma forma nominal dos verbos e, geralmente, é empregado:

 -Com valor de verbo, nas locuções verbais.

 ESTÁVAMOS SONHANDO COM UM MUNDO MELHOR.

 ESTÁ VINDO UMA FRENTE FRIA.

 -Com valor de nome, usado mais como advérbio de modo:

 O AMIGO ME PROCUROU CHORANDO

 A SAUDADE CHEGOU DOENDO MUITO.

  -Nas orações reduzidas adverbiais e adjetivas:

 ACABANDO O TREINO, SAÍRAM OS ATLETAS.

 EM SE TRATANDO DE AMORES, QUERO TODOS.

 ERA O REPÓRTER ANUNCIANDO A ENTREVISTA.

 Mas gramática à parte, aquilo que nos motivou este texto diz respeito aos dizeres que se propagam nas bocas que significam... E o que quer dizer:

 VAMOS ESTAR PLANEJANDO ou LIGANDO ou FAZENDO?

 Que sentido guarda essa construção com três verbos? Não é possível dizer apenas:

 ESTAREMOS PLANEJANDO, LIGANDO OU FAZENDO?

 É aí, leitor, que vale apena pensar... Esse estilo de dizer (se é que se pode chamar de estilo) guarda em seu interior a possibilidade do acontecer.

 Quando se diz: vamos estar ligando, é quase certo que ligaremos, tem a intenção de ligar.

 Quando se diz: estaremos ligando... A certeza é imediata e tem-se a impressão que a ação também será, então é mais comprometedor e deixa o interlocutor mais certo do que vai acontecer. Na primeira opção, tem-se que o fato ocorrerá possivelmente e aplaca a ansiedade a respeito do que acontecerá.

 É a típica linguagem de telemarketing que oferece trabalhos ou produtos e que necessita de um discurso vazio de certeza, mas que a aparenta.

 Eu, hein, em que mundo vivemos?

 Inventamos verdades ou quase verdades e jeito de dizê-las...

 Agora quando as escrevemos...

 É ARMADILHA NA CERTA.



10 Outubro 2017 16:32:00

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Quantos encontros a vida nos oferece?

As muitas oportunidades encontram, no encontro, os desencontros dos homens.

E é na linguagem que os maiores, melhores e/ ou piores encontros se fazem.

Assim como os desencontros, filhos dos azares ou desvios do destino.

É nesse contexto encontrado ou desencontrado que os discursos vão se enredando e mostrando seus significados.

Tudo isso é para falar do AO ENCONTRO que significa ir a favor, estar de acordo.

 E DE ENCONTRO que significa chocar-se, ir contra.

Então nosso interesse é ir de encontro às expectativas dos clientes? NÃO.

Nosso interesse é ir ao encontro às expectativas.

A diferença de sentido pode dificultar o entendimento daquilo que queremos dizer.

Então, DE ENCONTRO é ir contra algo e AO ENCONTRO é concordar com alguma coisa.

A ideia é essa, ir ao encontro das suas dúvidas, leitor, e impedir que dê de encontro com as ciladas da língua.

Já caiu na armadilha do encontro?



04 Outubro 2017 08:37:06
Autor: Katia Zilio

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Essa é uma conversa entre eu e você... Eu e você? O que é isso?

"Entre" é preposição e de acordo com a norma (não a Norma, prima da Lúcia), mas a regra que nos diz que quando do uso dela (a preposição) necessitamos da forma oblíqua e não da reta para compor o enunciado.

Que complicação entre mim e você, não? Não! É assim: Depende de mim e não "de eu". Quem estabelece essa combinação é a preposição "de".

É por isso que existem construções assim: Esse pacote é para mim abrir. Ora se a preposição determina o uso de EU ou MIM acreditamos ter feito a escolha correta quando optamos por "mim". Ledo engano: após o mim há um verbo que se constitui num vocábulo mais expressivo do que a preposição. Então: Esse pacote é para eu abrir. O livro é para eu ler. O casaco é para eu vestir.

Mas: O livro é para mim?

 Esse pacote é para mim?

 O casaco é para mim?

Na ausência do verbo, chega aí a preposição mostrando sua autoridade e convidando o MIM para se fazer presente.

Entre mim e você há a língua viva e perspicaz, nunca o erro inútil e preconceituoso.

Então MIM e EU concorrem com verbo e preposição nas frases que eu faço para ti e tu o fazes para mim!

E a armadilha? Caiu?



26 Setembro 2017 11:44:00
Autor: Katia Zilio

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Hoje, leitor, não quero falar de regras e dar-me-ei o direito de dizer, dizer e dizer.

Quem é essa língua a quem devemos tanto?

Devemos, pois, a nossa identidade às palavras que usamos.

O jeito que dizemos, aquilo que dizemos faz parte do aglomerado de certezas e incertezas das quais fazemos parte.

Explico: para sermos o que somos usamos a língua, essa linguagem nos torna sujeito dos dizeres... E achamos que quando o dizemos, estamos dizendo por nós mesmos...

Quem dera, somos repetidores dos discursos que nos atravessam e nos constituem... Alguém já disse e, por isso, faz sentido e nós nos apropriamos disso para que também possamos dizer e significar.

Nem sempre dizemos aquilo que queremos. As convenções nos obrigam a pensar e repensar aquilo que pretendemos dizer. As verdades (nunca o são) não podem ser ditas de qualquer forma e isso é nos ensinado logo que compreendemos os ditames sociais.

Como dizer àquela tia que nos aperta as bochechas que não gostamos desse comportamento?

De que maneira podemos falar que alguém está feio ou desajeitado com tal roupa?

A sinceridade infantil (aquela que todos já vivenciaram) é censurada até que aprendemos a dizer diferente, ou não dizer, ou ainda... mentir.

É, mentir faz parte do código de aceite social.

A língua nos permite dizer, mas igualmente permite calar ou dizer de outra forma para que o convívio social não seja abalado ou o seja o menos possível.

As armadilhas não são só da língua, elas existem em outros encontros e desencontros sociais que, às vezes, fazem-nos refletir:

Quem sou eu e o que quero realmente dizer faz sentido para quem?

Essa pode ser a pior das ARMADILHAS DA LÍNGUA: A DO DIZER OU A DO CALAR.

E você, leitor, por qual delas pretende lutar?



19 Setembro 2017 14:13:00
Autor: Katia Zilio

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Nossa, parece música portuguesa, aquela do Leoberto Leal (será ele?): vira, vira, vira....

Mas é isto mesmo, leitor: o verbo ver numa certa conjugação (mais precisamente no Presente do Subjuntivo) será conjugado assim:

Quando eu vir você.

E não:

Quando eu ver você.

Nesse tempo, o verbo adquire formas parecidas com o infinitivo:

Quando eu falar...

Quando eu escrever...

Quando eu dormir...

No entanto, o verbo ver e seus derivados (prever, rever, entrever e antever), no Futuro do Subjuntivo, apresentam-se desta forma:

Vir

Vires

Vir

Virmos

Virdes

Virem

Nessa conjugação, perceba, leitor, a forma vires e virem que é homônima (igual) a do verbo virar, mas em tempo verbal distinto - Presente do Subjuntivo.

Vire

Vires

Vire

Viremos

Vireis

Virem

Já o verbo vir e seus derivados (intervir, advir, convir, etc.) é conjugado também no Futuro do Subjuntivo de forma peculiar:

Vier

Vieres

Vier

Viermos

Vierdes

Vierem

Então dizemos:

Quando ele vier a minha casa, será uma boa visita (e não, ele vir).

Quando eu vir você amanhã, ficarei feliz (e não, quando eu ver).

Por que confundimos?

Porque, pela lógica dos verbos regulares, nesse tempo (Futuro do Subjuntivo) é comum o estabelecimento da conjugação usando como parâmetro o infinitivo do próprio verbo, isto é: ar, er, ir.

Nos verbos como ver e vir essa analogia não funciona, pois não são considerados regulares.

Por isso é comum ouvirmos:

Quando eu te ver na rua, cumprimentarei com um sorriso (seria vir).

Quando você vir à festa verá a animação da turma (seria vier).

Portanto:

Quando vir a coluna, leia, pois quando vier a dúvida...



13 Setembro 2017 08:36:07
Autor: Katia Zilio

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Hoje nos deparamos com a expressão TIPO ASSIM já popularizada e divulgada em diversas camadas sociais e adotada por todos (quase todos) como um bordão. Mas o que ela significa realmente? No dicionário oficial ela ainda não está descrita, mas a internet já possui significado ou explicação para TIPO ASSIM. Diz o dicionário informal:

"Expressão utilizada quando se tenta conseguir tempo para raciocinar, montar um pensamento ou mesmo concluir o pensamento, para depois falar."http://www.dicionarioinformal.com.br/tipo%20assim/

Esse dicionário assinala que essa expressão também é utilizada quando não dominamos o assunto que vamos falar, caracterizando uma enrolação, embromação.

Talvez, leitor, você já tenha falado um TIPO ASSIM em alguma oportunidade, ou seja fã de carteirinha dessa expressão, utilizando-se dela em muitas ocasiões durante a sua explanação. Quero ressaltar aqui o quanto essas expressões são contagiosas e como "pegam" na linguagem cotidiana. Às vezes, fica difícil se livrar delas. Você deve se lembrar de uma personagem de Heloísa Perissé, a Tati, uma adolescente, que popularizou essa expressão, em programa de humor da Rede Globo.

Sou, é verdade, uma aficionada por linguagem, mas, às vezes, tenho que reconhecer que só isso não convence o aluno a refletir sobre a língua que fala e a que ouve. E a popularização de uma expressão é a prova de que carecemos de um vocabulário mais efetivo.

A TV colabora com a expansão de falácias que domesticam e uniformizam os falares, a internet, hoje, também age na linguagem e, por isso, ler constantemente pode ajudar a não ser refém de palavras ou expressões que pouco ou nada dizem.

É tipo assim

Eu tipo assim acho que

Ela é tipo

Então tipo assim

É uma amostra do que se pratica com a expressão aqui abordada.

Ler Armadilha da Língua é, tipo assim, um caminho para, tipo assim, conseguir, tipo, um jeito de, tipo assim, pensar a linguagem.

TIPO ASSIM, entendeu?



30 Agosto 2017 08:55:18
Autor: Katia Zilio

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 A reforma ortográfica teve o objetivo de unificar a ortografia dos países que falam a Língua Portuguesa: Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau, São Tomé Príncipe, Timor Leste, Brasil e Portugal.

 O acordo ortográfico modificou em torno de 0,45% das palavras, já em Portugal houve mudança em 1,6% das palavras. A modificação ortográfica não é suficiente para unificar a língua desses países. Há diferenças semânticas e sintáticas que transcendem a ortografia.

O uso do hífen, com a reforma ortográfica, apresentou poucas modificações...

Lembremos que com:

Pós, pré e pró (monossílabos tônicos) há sempre hífen.

 Pré-escola, pró-reitor, pós-graduação.

Os demais casos são escritos sem hífen: predeterminar, preexistir, preestabelecer (e derivados).

Além, aquém, ex, recém, sem, soto e vice há sempre hífen.

 Além-túmulo, ex-aluno, recém-nascido, sem-número, vice-prefeito.

Não se usa mais hífen nas palavras compostas que deixam de ser compostas (hoje a regra não dá conta desse item).

Como: mandachuva, parabrisa, paraquedas.

Como saber? Seria bom consultar dicionário.

Há palavras que apresentam uma grafia no Brasil e outra em Portugal. É o que chamamos de dupla grafia. Um exemplo disso:

Fêmur e fémur

Pônei e pónei

Fato e facto

Matinê e matiné

Gênio e génio

A segunda palavra apresentada acima é sempre a possibilidade de Portugal.

Pensando que Armadilha pode ser em qualquer língua, o génio da matiné é facto que se explica em Português (do Brasil ou de Portugal).



22 Agosto 2017 09:00:45
Autor: Katia Zilio

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O que origina este texto, hoje, já repetindo um tema anterior, é a dúvida de um leitor acerca do uso do LHE.

Cabe então um retorno ao assunto, visto que os exemplos convidam à reflexão. Vamos lá:

Caro leitor, no exemplo:

 (...) os invejosos lhe veem como uma" coisa" pode lhe ajudar a se desligar (...),

 As duas manifestações do pronome oblíquo LHE contrariam as normas gramaticais (mas é claro, não impedem o entendimento do texto), pois o verbo VER pede objeto direto e o pronome LHE sempre guarda em si uma preposição (equivale a A VOCÊ). Quem vê, vê alguma coisa e não a alguma coisa. Assim também o verbo ajudar: pode ajudá-lo (la), ou pode o/a ajudar. Há que se utilizar de pronome oblíquo que corresponda a objeto direto.

Os pronomes oblíquos O, A, LO, LA, NO, NA, seguidos ou não de S são considerados objetos diretos, isto é, não se apresentam com uso de preposição.

 O pronome LHE (s) é considerado objeto indireto, pois equivale, como já dissemos, a A VOCÊ.

Então:

Ofereceu-lhe (a ele) um jantar.

Ofereceu-o (um jantar) a ele.

Ou ainda,

Ofereceu-lhe.

  Mas isso já é assunto para outro texto...

Já os pronomes ME, TE, SE, NOS, VOS podem exercer tanto a função de objeto direto quanto de objeto indireto. Por isso:

Ela nos indicou o caminho.

Ela indicou o caminho a nós.

Ela nos levou às compras.

Ela levou nós às compras. (Essa forma só é utilizada na língua informal).

Ele te levou para casa.

Ele levou tu para casa. (Combinação realizada em algumas regiões do Brasil).

Eu te dei esse presente.

Eu dei para ti esse presente.

Quanto ao uso de LHE ou TE que foi um dos questionamentos do leitor, entende-se que o pronome TE e o uso da 2º pessoa aproxima, demonstra maior intimidade. Já o uso da 3º pessoa e do LHE indica maior formalidade (usa-se o LHE se o verbo admitir preposição).

A língua portuguesa falada em Portugal é, sem dúvida, mais formal do que o português falado aqui no Brasil, mas ambas propiciam nossa interação com o outro e com o mundo.

E aí, a armadilha? Caiu-lhe como uma luva?

(Caso outros leitores tenham dúvida sobre alguma questão pertinente à língua o nosso e-mail katiazilio@bol.com.br está à disposição)



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