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Tesouros da memória

21 Abril 2018 08:00:00

Sabor e cheiro são fortes testemunhos do passado

Ana Paula Della Giustina

Quase toda família guarda um. Rasgado, com páginas amareladas e letra manuscrita. Dentro, verdadeiras relíquias culinárias, os cadernos de receita são verdadeiros tesouros da nossa memória familiar. 

Quem nunca passeou os olhos por um caderno de receitas antigo? Dependendo da família, eles ficam guardados na cozinha, em meio aos livros de receitas ou ganham destaque na decoração da casa. Mais que guardar modos de preparo, eles guardam a história da família.

Afinal, poucos são aqueles que não guardam cheiros e sabores na memória, vindos das panelas de mães, avós, tias, madrinhas ou vizinhas habilidosas. O preparo de um bolo não é só a mistura do ovo, da farinha e do leite, mas narra a trajetória de uma família, suas tradições, seus caminhos. O cheiro que sai da cozinha não nos avisa apenas que haverá carne ensopada, o barulho agudo da panela de pressão, não alerta só que o feijão está pronto. Ele nos lembra do tempero especial da mãe, da tia, da avó e todas as lembranças construídas e conversas ligadas ao longo das intermináveis refeições que habitam nossas memórias mais queridas.

Muito do que somos é definido por essa trajetória culinária. Alguns preservam tais memórias fora da cabeça, em cadernos de receitas antigos, com segredinhos escritos à mão e páginas amareladas, verdadeiras relíquias de família. Muito mais do que simples anotações, esses cadernos são documentos de um tempo. Pelo seu conteúdo é possível conhecer questões de gênero (numa época em que o poder da mulher era exercido através da culinária, com segredos passados de geração em geração), econômicas (tempos de fartura implicavam muito ingredientes, de recessão, modéstia nos pratos) e culturais (indícios de núcleos familiares numerosos, que exigiam receitas com grande quantidade de ingredientes).

Um tesouro rico em afeto e amor, escrito há muitos anos, já que as receitas, na sua maioria, vinham com o nome de quem criou ou de quem ensinou. Tem a bolacha da Maria, o bolo da D. Elma, a cuca da nona.

O caderno guarda além das lembranças escritas, marcas de gordura, leite, temperos e farinha. Se analisarmos essas receitas, podemos até perceber a evolução do hábito alimentar: quantidade de ovos, açúcar ou banha de porco das receitas. Mas o que me chama mais a atenção é o "código de unidade de medidas" usado: um copo pela risca, um prato fundo menos um dedo e por aí vai. Mesmo com essa imprecisão de detalhes, esses registros simbólicos recontam momentos vividos em volta da mesa, onde a convivência possibilitava ricas trocas.

Com o tempo, notei que foi se perdendo esse hábito de registrar as receitas de família. Quando converso com outras pessoas sobre isso, vejo que essa dificuldade é generalizada. Muita gente sente falta das receitas passadas de geração pra geração, um lugar real pra anotar os 'pulos do gato', os truques da nona, para aquele bolo ficar fofinho. Um lugar pra gente deixar de presente pra posteridade.

É que sabor e cheiro são fortes testemunhos do passado. E afirmam que esse passado a cada dia mais distante pode, a qualquer momento, se fazer presente através do poder de sentidos como paladar e olfato.

Sim, cadernos de receitas representam tudo isso. São ferramentas para se observar a vida cotidiana do nosso passado e presente. Isso já faz dos escritos culinários, por si só, narrativas preciosas. "Um patrimônio". Escritas que nos permitem olhar a comida antes de ela existir e acariciar a ideia de saboreá-la.

"Cozinha é também um lugar de memórias, de experiências, de conversas. Nem só de pão vive o homem".


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