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Nascer sabendo

26 Maio 2018 00:05:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Um dos meus desejos quando criança, e acho que de muita gente, especialmente quando tínhamos alguma prova, um trabalho na escola, era nascer sabendo. "Por que eu não nasci sabendo?" Aí eu não precisava levantar tão cedo para estudar. Nem ficar até tarde na leitura de um livro. Aquele sonho de nascer sabendo tem uma forte marca de infantilidade. 

Nascer sabendo, mesmo que pudesse nos dar algum conforto, seria fortemente negativo na nossa história. Se nascêssemos sabendo, só poderíamos fazer aquilo que já sabíamos, portanto, entraríamos num processo de repetição, de falta de criatividade, de incapacidade de inovação. Uma das coisas que nos caracteriza como espécie humana é sermos capazes de construir e recriar outra forma de vida individual e coletiva.

Isso se dá porque, de fato, não nascemos sabendo. Embora seja uma situação boa de imaginar, nascer sabendo nos colocaria no mesmo patamar de outras espécies que apenas reproduzem, clonam aquilo que já têm. A nossa capacidade seria repetitiva, redundante, isso é, do mesmo modo que já estava.

Que bom se nascêssemos sabendo: esse foi um desejo pontual. No geral, não seria bom, de forma alguma.

A cultura, em seu verdadeiro significado, é a soma da informação com a vivência e a experiência. Não se restringe, portanto, como erroneamente se supõe, ao acúmulo de conhecimentos mal entendidos e pessimamente digeridos.

Ou mesmo que bem assimilados, não importa. Não é necessário que um indivíduo colecione diplomas, para ser verdadeiramente culto. Temos exemplos em profusão a esse respeito. O mais conhecido é o de Machado de Assis, que jamais cursou qualquer escola, e, no entanto foi, sem favor algum, o maior dos nossos escritores. Foi um aplicado autodidata que soube o que fazer com aquilo que aprendeu.

Algumas pessoas nos encontram e dizem: "Mas você não é mais o mesmo". Nem sempre isso deve ser entendido como uma ofensa. Vez ou outra pode ser olhada como um elogio, afinal de contas, a constância, de pensar e agir, não necessariamente é um indicador de coerência. Pode ser um indicador de intransigência, de intolerância, de incapacidade de pensar de outro modo.

Desse ponto de vista, há uma inconstância eventual que nos ajuda a criar, a reinventar, a refazer. Essa capacidade foi um dia reconhecida por Aldous Huxley, um britânico que produziu uma magnífica obra: Admirável mundo novo, que disse: "A constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos".

Frase forte, mas com um ponto de reflexão. Não se trata de simplesmente alterar o modo como se pensa ou se faz algo só porque o vento bate em outra direção, mas de não ser constante numa única direção, porque pode ser um sinal de inflexibilidade mental, e isso não é bom.

"Nascer sabendo é uma limitação, porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar." (Mario Sergio Cortella)

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