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Vão-se os dedos

23 Agosto 2018 10:39:00




(Foto: Divulgação)

 Nunca é sem alguma dor - por vezes muita dor - que reflito sobre os valores do mundo, ou, como diria Cecília Meireles, as ilusões do mundo. Que me perdoem os muito materialistas, que me desculpem os viciados em beleza frívola, entretanto eu acho as ilusões do mundo tão podres que pensar sobre elas já me causa repugnância. Com repugna ou sem, escrevo este texto não para que concordem comigo, mas para que pratiquem o que a literatura veio trazer ao universo: a arte de pensar.

 Os valores do mundo a cada dia me surpreendem mais pela falta de substância que alucina e pelo vazio que enreda. Quanto maior a ambição material de uma pessoa, mais adequada ao mundo ela estará. Quanto mais padronizada, melhor. Porque as noções de felicidade estão tão desconjuntadas que nem para respeitar um adágio ajuizado elas servem; pois, na verdade, o que a sociedade quer é que vão-se os dedos e fiquem os anéis.

 O peito cheio de medalhas... Mora alguém lá dentro? Não importa. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Os olhos quase tapados de tanta sombra colorida e toda sorte de máscaras para cílios... Brilham por algum motivo? Ninguém liga. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 A cabeça coroada de glória... Seus pensamentos são de paz? Isso é o de menos. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Pernas bonitas e saradas... Levam para um destino feliz? Não nos preocupemos com filosofia. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Emprego bom, paga muitíssimo bem... Se sente satisfeito nele? Realidade, poeta. Realidade! Se paga bem, o que mais questionar? Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Marido bonito e bem-sucedido... Como ele te trata? O que seu coração diz em relação a ele? Pegue o coração e enfie na lata do lixo, cronista! Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 E quanto à beleza da natureza? Aqueles afetuosos pedaços aromáticos de céu a que chamamos de flores: cravos, rosas, margaridas, violetas, jasmins, crisântemos e lírios... Vendem bem? Porque se for só pra cultivar, admirar e ser feliz por isso, de nada adianta. Vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Escultura? Se não for famosa, não tem valor. Pintura? É de renomado pintor? - Livro? Não conheço esse autor, então não deve ser bom, se não é conhecido, não pode escrever bem. Porque, como sabemos, é o sobrenome que esculpe, pinta ou escreve e não a pessoa. É o sobrenome que sangra, geme e chora e não a pessoa. É o sobrenome que é artista, e não, nunca, jamais, a pessoa.

 Aliás, querem prestar honras e lisonjas ao artista. Mas e se talvez ele, o artista, no fundo só quiser ser amado como ama? O problema é sempre o mesmo: vão-se os dedos. Ficam os anéis.

 Podem me chamar de rebelde; mas eu, bem ou mal, comando a minha vida, por isso rejeito essas pútridas ilusões e ainda prefiro os meus dedos, ainda que feridos, para que, além da luta, possam acariciar o ser humano que a isso se dispuser. Aquele que não se importe se esses dedos têm anéis ou não.


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