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Todos nós, os loucos

28 Junho 2018 09:41:00


(Foto: Divulgação)/

Quem nunca parou para observar um louco descontrolado? Sim, porque loucos controlados somos nós: temos loucuras várias, iguais as dos loucos descontrolados; mas nós, que pensamos ter as rédeas de nossas emoções, somente por isso não somos chamados de malucos. 

Um anda cabisbaixo, vestindo roupas dos anos cinquenta, chapéu e debatendo animadamente consigo; quando passam por ele escancara os olhos e mexe no nariz. Outro, enquanto caminha, se balança todo e faz vibrar os músculos do rosto. Tem outro ainda que sempre está com frio, casacão até os joelhos, mesmo com o sol derretendo. Ri de tudo, ri escandalosamente, quando decide berra, assusta os transeuntes.

Tem a louca dos dentes pretos e dos vestidos coloridos. Essa, quando não se encontra ocupada demais cantando os homens e estalando a língua, promete ler a mão e modificar a sorte de qualquer um desde que receba R$ 20,00. Se for homem, 10. Se bonito, 5. Se for rico ela pede apenas para dar uma voltinha de carro.

Existe também o louco do "Oi". O louco do oi é aquele que instituiu como missão desestabilizar quem anda no mundo da lua. Eu, por exemplo, em diversas ocasiões já fui surpreendida por esse louco. Não tem nenhuma aparência de lunático, como o do chapéu ou o que se balança; pelo contrário, é um rapaz aprumado, mas quando esbarra em alguém que está distraído grita "oooi". Você dá um pulo, claro. Então sim, ele ri. Ri à beça. Parece que rir é a medalha dos loucos.

Como eu ia dizendo no começo e recordar esses loucos me fez enlouquecer o rumo do texto, a diferença entre nós (os "normais") e os loucos é que nós controlamos as nossas loucuras. Eles nem tentam. Freud diria que a maioria dos complexos emana de desejos reprimidos. Quando o superego começa a dominar monocraticamente nos tornamos perfeccionistas, paranoicos, reguladores; enfim, nos tornamos normais. Nos transformamos no protótipo requerido pela sociedade.

Se os loucos descontrolados perderam de vez o superego, se não dão ouvidos a ele ou, mais ainda, se conversam com Freud em sonhos (Freud adorava os sonhos para explicar as maluquices humanas), então é por isso que riem tanto. E deve ser por idêntico motivo que nós, os loucos controlados, transpirando superego, estamos cada vez mais carrancudos e infelizes. Nós, os loucos controlados, somos aqueles que medem bem as palavras, aquilatam emoções, estudam com minúcia cada ação, mas nossa mente é incapaz de dizer basta aos ansiolíticos e antidepressivos.

Cada espécie de louco tem a aprender com a outra espécie. Talvez, apenas talvez, fosse bom que os loucos descontrolados recobrassem um pouquinho do superego. Mas certamente nós, os loucos controlados, nos livraríamos de um tanto da nossa amarga loucura se a misturássemos com a doce loucura deles.

Tudo isso para que, um dia nós, todos nós, os loucos, sejamos felizes.


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