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SONDANDO O TERRENO DOS AMORES

01 Novembro 2018 11:14:00


(FOTO: Divulgação)

O paradoxal ultrapassa o entendimento. O paradoxo, portanto, uma vez detectado e não compreendido, impõe a necessidade de ser sentido.  

Dia desses um amigo e eu filosofávamos a respeito dos paradoxos da vida. Falava ele, com sua natural verve de observador, a respeito da discrição aparente como incrível sinônimo de atrevimento mascarado:

- Sempre é assim. As mais quietas são as mais levadas.

- Levadas em que sentido? - indaguei, já me ouriçando para rebater.

- Levadas no sentido de contornarem qualquer obstáculo para alcançar seus objetivos.

Me mandou anotar, o sacana. Disse que a frase fora despejada de sua mente num raro lapso magistral. Não anotei. Primeiro, para desafiá-lo. Segundo, para autoafirmar a minha lapidada capacidade de memorização, e também porque absorvi instantaneamente a essência de sua sentença: a vida como paradoxo inevitável.

Se as mais quietas são as mais levadas, se a água mole pode furar a pedra dura, se confusão vira melodia, será que a impossibilidade dos amores pode ser atenuada com a possibilidade das loucuras?

É maluco cavar esse terreno. Mais: é perigoso. O terreno dos amores vomita incompreensões e angústias, quando revolvido. O terreno dos amores incomoda, como incomoda o invasor no cerne da ostra, mas só assim ela consegue produzir a pérola. O terreno dos amores, meus amigos, é o exemplo clássico (e sempre atual) do paradoxo.

Seria, então, nesse contexto, o terreno dos amores mais acessível às criaturas ousadas? Às "levadas", como tão bem nomeou o meu amigo? Seria o terreno dos amores constituído de solo frio e de árvores severas para os covardes? Seria, consequentemente, de uma terra mais macia e de plantas sorridentes para os fortes? Outro paradoxo. Não são os fracos que precisam de facilidades?

Ah, vida. Minha vida, nossa vida, esse ciclo incompreensível. Quanto mais fibra tem um homem, mais claras se tornam as coisas. Quanto mais tímido na direção da conquista, mais obscura e íngreme a estrada.

"É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre", diria uma canção. É preciso sondar o terreno dos amores, suas pedras e suas flores, suas depressões e planaltos, seus riachos e valos enlameados; identificar cada paradoxo e partir. Partir com o atrevimento dos levados e com a suavidade dos confiantes.

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