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Sapatos Novos

16 Agosto 2018 15:19:00




(Foto: Divulgação)

Leitores, a partir desta semana retornam as crônicas; mas tranquilizo os admiradores dos temas poéticos, pois estes continuam, embora sob roupagem de prosa, como nesta crônica:                                 

Alguém me disse que cresci. Sabe, eu não tinha percebido. Esse alguém também me disse que é normal não se dar conta: adultos são estúpidos mesmo. E essa, dentre tantas, foi a minha maior estupidez: não ter notado que cresci.

Cresci em todos os sentidos e ainda me é doloroso admitir. Ainda machuca aceitar. E o que mais fere, na verdade, é que agora que aceito que cresci, vou ter que deixar de andar com os meus sapatinhos. Sabe, eles são uns 3 números menores do que o meu pé. Deve ser por isso que algo (que eu não sabia precisar o quê) me angustiava tanto nessa difícil caminhada pela vida: meus pés estavam apertados. Há anos esmagados por sapatinhos pequenos demais.

Mas eles são tão bonitos, penso, enquanto os acaricio. Pretos com lacinho branco. Sapatos lindos. Para uma criança. Em mim não cabem mais. Ou sou eu que não caibo neles, apesar de já ter cabido.

Deixo no chão os sapatinhos e sento ao lado deles, descalça. Meus pés estão tão, tão feridos. Há tantas marcas de calos neles. Afora que estão meio encolhidos, acanhados por terem ficado tanto tempo sufocados em uma realidade que a eles não se adequava mais.

"Você cresceu", me disse ele. Com um estalo, essa advertência quase quebra de vez meu coração já cambiante. "Está grande demais para usar esse sapatinho. Você não cabe nisso aí. Aceite".

Me desesperei, claro: vou ter que andar descalça pelos pedregulhos que há tanto maculam minha inocência? Vou ter que chutar, descalça, os infindáveis muros das minhas resistências? Chorei. Tentando me trancafiar dentro do meu peito, me afligi, me torturei diante dessa crueldade fatal.

Sorrindo aquele sorriso tão tranquilizador, tão cândido, tão seu, ele me mostrou sapatos novos. No momento em que pediu para que eu os colocasse, era como se a sua voz fosse composta de toda a doçura que quando criança tanto me alegrava.

Calcei. Lentamente. Brandamente procurei por cadarços: não havia. Naqueles sapatos nada me prenderia. Insegura, dei um passo, depois outro, certa de que não seriam do meu tamanho. Mas eram. São. São sapatos exatamente do tamanho dos meus pés. E são bonitos, veja! Como são lindos. Incrivelmente mais belos do que aqueles que não me serviam e que eu insistia em calçar.

Fico um tempo admirando meus sapatos novos, pensando, idiotamente, que sempre haverá sapatos novos para pés cansados. Quando levanto os olhos, ele já se foi. Me trouxe os sapatos e voltou para casa, ouvi dizer que mora bem distante daqui, parece que em outro estado, mas sinto que talvez seja proveniente de outro universo.

A vida tem disso: encontros e despedidas. Mas agora, com meus sapatos novos, posso jogar fora aqueles outros que, apesar de terem me acompanhado por tanto tempo, agora não servem e preciso aceitar, eu sei. Não posso me diminuir para entrar neles e tampouco podem eles aumentar de tamanho. Acabou. Fim. Morte. Mudança. Transformação.

Por um segundo cogito guardá-los em uma sacola para dar a alguém que calce aquele número. Mas não vou fazer isso. Primeiro porque sou tão apegada que é capaz de mesmo tendo sapatos novos, queira voltar a usar os antigos, atualmente imprestáveis para mim. E segundo porque estão manchados de sangue. O sangue de todos os ferimentos que suportaram por anos. Os ferimentos que eu me impus, por encolher meus pés. Então vou jogar fora, queimar, não tem outro jeito. Assim não volto atrás de uma realidade que finou-se e só eu não percebi.

Sei que, lá fora, os obstáculos continuam tão ou mais cruéis. Mas agora tenho sapatos novos.


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