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Ruínas pressentidas

24 Maio 2018 14:26:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Quem se arrisca a uma idade quando todas elas já se perderam na noite? Quem pode avaliar um coração quando cada um, a seu modo, se esconde em si mesmo? Quem julga saber quando todos os saberes encerram-se em ruínas pressentidas?

Aquela incerta idade daquele incerto ser para mim era isso: refém da noite. O coração oculto nos olhos também ocultos porque momentaneamente fechados para a vida era cave suprema, esconderijo de si mesmo. Por isso, nada julgava saber daquele homem atirado à praça, com saliva escorrendo pelo queixo e a barba de dias. Nada dele arriscava para não deslizar pelo fosso traiçoeiro das ruínas pressentidas.

Falando em fosso traiçoeiro, aliás, queria que nem eu, nem ele, nem você, nem qualquer de nós caísse nele. Nunca se sabe quando ou se poderemos nós, em algum tempo, sair do fundo.

Porque o sol ficou mais ardido ou porque me aproximei, não se pode entender ao certo, o homem abriu um olho, para logo em seguida fechá-lo, sem interesse pelo dia, pelo cachorro que farejava seu vômito ou pela intrusa que queria tudo dele saber sem nada sobre ele arriscar. O olho me pareceu transparente, sem vestígio de nada senão o nada. A córnea vazia de tudo, senão do vazio.

Bonito o desconhecido. Beleza de traços angulosos e corpo graúdo. Talvez boxeador do mundo, ou quem sabe boxeado pela vida. Vômito recente e rico dormitar em uma quarta à tarde. Bebendo desde ontem à noite? Olha aí, eu, cogitando, logo eu que sempre o faço e sempre juro, por minha alma, não mais tornar a fazê-lo. Será que é por isso que andas tão zangada, alma minha?

Espantei uma mosca que se arrastava por sua boca, ralhei com o cachorro que agora lambia-lhe as pálpebras. Ele nem aí. Dormindo o sono dos despreocupados. Cochilava ao sol com tanta placidez em razão da consciência leve? Ou talvez, tão leve ela fosse, que tivesse evaporado? Naquele momento suspeitei que não apenas as consciências limpas trazem sossego, mas não ter consciência, igualmente, nos faz dormentes criaturas.

Roncou. Assustado com o próprio ronco, deu dois tapas na orelha. Acordou-se com a dor. Sentou-se sobre o vômito. De puro álcool. Acenderam-se seus olhos, finalmente. Azuis, quem diria. Bem azuis.

Tão bonito quanto devastado.

Me olhou. Não porque meus olhos fossem tão belos quanto os dele - não são. Mas por um motivo óbvio, que entendi quando me fez a pergunta:

- Tem pinga?

Sorriu. Dentes grandes e brilhantes.

Tão bonito quanto devastado.

Apenas chacoalhei a cabeça. Levantou-se, cambiante.

- Quem tem será? - quis saber, desorientado.

Intentando despistar as ruínas pressentidas, me afastei, resmungando que de nada sabia.


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