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Projeto X felicidade

10 Janeiro 2019 10:05:00


(Foto: Divulgação)

Tentamos sustentar o ingênuo diagnóstico de que o destino será constrangido a efetivar os nossos projetos. Projetamos o que nos parece melhor, consentâneo aos padrões, o que tem a aparência de tornar nossa vida mais fácil, mais confortável, mais feliz. 

Mas a felicidade, a felicidade mesmo, aquela que nos transforma em seres exultantes, realizados; aquela sensação forte, abrasadora, inestimável: esse sentimento bagunça nosso projeto. Esse sentimento bagunça tudo. 

Aí, vem a dúvida. A incerteza. Seguir o projeto ou seguir a felicidade? Ser honesto consigo ou com as projeções? Deve-se frustrar anteriores pactos emocionais para construir algo que, para que seja pleno, precisa, antes, de desconstruções? 

Projetamos, sonhamos, fantasiamos que seremos felizes de uma maneira, arbitrariamente escolhida. Então vem a felicidade. A felicidade de verdade. A força superior a você. A força que rejeita projetos. A força que basta por si mesma. 

Vem a felicidade, com seu jeito charmoso, envolvente, fatal. Vem a felicidade e ri do projeto. Vem a felicidade e faz baderna. Vem a felicidade e te faz vibrar. Vem a felicidade e finalmente te faz feliz. Vem a felicidade e zomba de frágeis razões. Vem a felicidade e detona o projeto, com um lento sorriso. Vem a felicidade e mostra quem é que tem o poder. 

Muitas vezes, negligenciamos a felicidade para viver o projeto. Procuramos nos convencer de que o que nos fará feliz será o planejado. Pois nunca aceitamos estar errados, queremos acertar sempre, sobre tudo. Mas a felicidade é rebelde, se emancipou dos planos. A felicidade chega e arrebata; acaso tentemos resistir a esse arrebatamento, estaremos lutando contra algo mais poderoso do que nós. 

Até onde vai essa luta? Até onde vale a pena? Até onde a felicidade suporta sistemáticas preterições; preterições em favor de algo muito menor do que ela? Afinal, o projeto sempre, independente de sua importância, de sua envergadura, de sua aparência de correção, sempre, SEMPRE será menor do que a felicidade. 

O projeto não nos completa. O projeto, quando alcançado, se mostra insuficiente, irracionalmente vazio, apesar de bonitinho, decorado com uma fitinha. E quem, ainda assim, se diminui para caber no projeto, sacrificando a felicidade (a felicidade jamais aceitaria rivais), esse macula a consciência e não consegue estabelecer algo verdadeiro dentro do coração, pois age contra seu próprio querer. 

Não é segredo que nada pode ser edificado sobre omissões de verdades e máculas de consciência. É desnecessário que venha a infelicidade e diga. Qualquer um sabe. 

Entretanto, a felicidade é um ente tão grande, tão luminoso, com asas tão potentes que, quando se sente menos relevante que o projeto, simplesmente voa. 

Voa e não volta.    

 

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