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Por que não cresce?

06 Setembro 2018 10:16:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Mãe no ônibus, conversando pelo celular com o filho de 38 anos: 

- Não esquece que o Danoninho tá na geladeira, na segunda prateleira de cima pra baixo, ao lado do pote de feijão cozido... Sim, eu sei que essa é a terceira vez que falo, mas é só pra você não esquecer. Filho, se cobre bem essa noite, vai ser frio. A manta azul tá no guarda-roupa bege, na terceira prateleira de baixo pra cima. Hã? Sente calor à noite? Mas essa vai ser gelada, diz a previsão. Sabe se cuidar? Mais ou menos, né, Carlinhos? Abasteci o carro, mas não saia, fique em casa, cuidando do Nestor (cachorro da família). Não! Não abandone o Nestor como você é acostumado a me abandonar. Não xinga, sou tua mãe! Quando você tiver um filho, vai me entender... Mas... como eu sei que você não quer agora... aperta bem a ponta, senão entra ar e... O quê? Pra eu falar baixo? Eu falo baixo, você sabe (a mãe é de descendência italiana). Além do mais, são só 30 passageiros. Quanto ao meu futuro neto, esqueça aquela vigarista pra mãe dele. Conheci uma moça tão boazinha aqui no ônibus: ajuizada, prendada, sabe até fazer pão! (Dá uma leve batida no joelho da mulher ao lado, que sorri amarelo). Quê? Pra eu não me meter na tua vida? Eu só falei! (Chorando): Quando eu morrer você vai sentir falta, tá? Quando tua mãe estiver jogada num caixão, ah, Carlos Augusto, aí você vai se arrepender. Ou não. Ou é capaz de nem me velar, desalmado que é pra tua mãe. Só pra tua mãe, porque pra vigarista é todo cheio de amorzinho. Não grita, Carlos Augusto! Ainda sou tua mãe; mais respeito, moleque!

Pausa. Voz doce:

"Já acertei com o dono do restaurante ao lado de casa. Você vai almoçar lá. Hã? Não gosta da comida? Como assim? Filho meu não é enjoado. Vai comer lá, sim! Você precisa comer mais salada. Tá ficando fofinho, embora continue lindo. Quanto à janta... Eu sei. Sei que são só 2 dias. Um e meio, na verdade. Tá, tá, vou ser tolerante dessa vez, só pra não me chamar de controladora. Deixo você encomendar pizza. E como já imaginava que ia querer jantar pizza, deixei dinheiro em cima da geladeira, à esquerda, embaixo do Santo Antônio. Você tem? Eu sei que tem, mas é agrado de mãe, Carlinhos, aceita. (Ela desconhece a razão, mas a maioria dos passageiros sufoca o riso). Tenho que desligar, a partir daqui o sinal fica fraco. Te amo. Se cuida: Danoninho, coberta, carro, cachorro, pé na bunda da vigarista, apertar a ponta, almoço, janta... Repassou tudo? Anotou? Ah, esqueci de falar..."

Antes de o sinal cair, Carlinhos desliga. Indignada, ela suspira, olha desolada para a pretensa nora e fala:

- Desligou na minha cara. Não criei assim. Não sei por que, mas esse menino nunca cresce!


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