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Oração da Wi-Fi

06 Dezembro 2017 23:03:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Muitas pessoas costumam ler um livro ou ouvir música durante viagens longas. Eu aproveito a oportunidade para cultivar meu mais arraigado regozijo: observar a natureza. O lugar na janela é sagrado para mim. Passar pelas árvores sem prestar atenção nelas, estar diante do sol sem com ele comungar, não firmar com o céu um compromisso é como deixar que a minha própria vida caminhe sozinha, enquanto eu espero por um momento mais propício para acompanhá-la.

Logo que entrei no ônibus, caminhei até minha poltrona (ao lado da janela, claro) e comecei a analisar o panorama antes mesmo que começássemos a viagem. Penso que minha expressão contemplativa provoque inquietação nas pessoas, uma vez que o motorista, enquanto caminhava pelo corredor para verificar se todos os passageiros estavam bem acomodados, reproduziu a pergunta que ouço com frequência: por que está aborrecida?

Disse que não estava. Garanti que era só meu jeito, mesmo. Ele não acreditou, uma vez que, dois minutos depois, em uma última inspeção antes de partirmos, batendo com o indicador sobre uma orientação em vermelho, logo acima da minha janela, lançou em tom amigável, no que julgou que seria uma afirmação confortadora: não precisa ficar aborrecida, tem Wi-Fi aqui. Falou como se aquela fosse a solução para todos os meus problemas. E não apenas para os meus, mas para os do mundo todo.

Assenti, fingindo que a tal Wi-Fi começava a modificar meu suposto indesejável estado de ânimo. Ele, só então satisfeito, foi para trás do volante, conduzir meus sonhos, guiar minha imaginação.

Pegando a estrada, comecei a reconstituir a cena na mente, tendo os outros passageiros como protagonistas:

Ei, moça do dread no cabelo... perdeu o namorado? Não precisa ficar aborrecida. Tem Wi-Fi aqui.

Garoto que vai pra faculdade... reprovou em todas as matérias desse semestre? Não precisa ficar aborrecido. Tem Wi-Fi aqui.

A senhora está doente? Diabete em estágio avançado? Acha que vão ter que amputar a sua perna? Não precisa ficar aborrecida. Tem Wi-Fi aqui.

Rapaz com os olhos inchados... de chorar? Ah, morreu alguém da sua família? Não se aborrece, não. Tem Wi-Fi aqui.

Potestade Wi-Fi. O esplendor de estar conectado. A moça que perdeu o namorado poderia postar nas redes sociais sentenças de desilusão com o amor, ou de revolta com os homens. As que eu mais tenho visto são: "Decepção não mata, ensina a viver". "Pisa, mas quando eu levantar, corre".

O garoto reprovado aproveitaria a Wi-Fi para marcar no Facebook todos os colegas igualmente encrencados e escrever: "Quem passa direto é ônibus".

A senhora doente faria o check-in no hospital em que iria se consultar, antecipando que, nos comentários, todos perguntariam o que havia acontecido.

O rapaz que soube da morte de um ente querido atualizaria a foto do perfil, colocando uma de luto no lugar.

E assim, todos diriam para o mundo o que se passa em suas vidas, através de fotos, meias-palavras ou frases sugestivas. E assim tudo logo se resolveria. Porque a Wi-Fi resolve tudo.

Que as tragédias desabem sobre nós. Que o mundo acabe, ninguém se importa (afinal, já acabou tantas vezes). Mas que não nos falte a Wi-Fi. Vão-se os namorados, fica a Wi-Fi. Vai-se o conhecimento, fica a Wi-Fi. Vai-se a saúde, fica Wi-Fi, fica! Morrem as pessoas, sobrevive a Wi-Fi. Não me sentirei surpresa quando até mesmo os mais crentes trocarem Deus pela Wi-Fi. Afinal, é ela a nova religião do universo.

O filósofo Gilles Deleuze classificou o ser humano como uma máquina desejante. Presumo que hoje todos os nossos desejos estejam consubstanciados nela - a nossa musa, a nossa deusa, o nosso epicentro: Wi-Fi que estás no céu.

Wi-Fi nossa que estás no céu,

Santifiquemos o teu nome,

busquemos o teu reino,

sempre façamos a tua vontade,

enquanto estamos na Terra e também quando partirmos ao céu (mas mais provavelmente ao inferno),

A conexão nossa de cada dia nos dai hoje,

perdoai os nossos erros gramaticais,

assim como nós perdoamos aquele que nos marcou em uma foto comprometedora,

não nos deixei cair em desconexão,

mas livrai-nos do tédio de ter que olhar nos olhos dos outros...

Só no final, um pedido para Deus: que nunca nos falte Wi-Fi.  

... AMÉM!


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