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Olhos famintos

13 Setembro 2018 11:01:00


(Foto: Divulgação)/

Sempre na mesma hora. Sempre no mesmo lugar. Fixa o trânsito sem enxergá-lo, seus olhos indo e vindo, refletindo os carros, os pedestres, a luminosidade violenta do semáforo. O vermelho do ardor e do sangue. Do furor e da tragédia. Seus olhos vermelhos duplicando o vermelho da agitação. Seus olhos brancos reforçando o branco da rotina. O branco do vazio. Seus olhos brancos opacos da brancura cega de sua vida. 

Invenção minha, julgam? Não. Personagem dele mesmo. Personagem de algum eu extraviado; mártir visado, plebeu imaginado. Seus olhos, aqueles aos quais não canso de descrever, naquele instante fitavam duramente o movimento, a fumaça, a poeira, cada semblante distraído, cada refém de tantas noites, esvaído. 

Dei-lhe o nome de Olhos Famintos, lembrando de um filme a que assisti na infância. Olhos Famintos, como já disse, sempre na mesma hora, sempre no mesmo lugar, fixa o trânsito sem enxergá-lo e jamais me vê. Jamais me vê, tenho certeza, porque Olhos Famintos não tem interesse por curiosas feito esta que tão pobremente vos escreve. Olhos Famintos, assim como eu, examina os alheados. Olhos Famintos, portanto, não se familiariza com outros olhos semelhantes aos seus. 

Passo todas as manhãs em frente ao banco de praça que Olhos Famintos tombou para si. Nos dias em que o sol se mostra e a ardência das origens queima através dos raios, seus olhos ficam vermelhos. Naqueles em que só a nebulosidade macula o céu, o frio vigora e os distraídos são distraídos tristes, Olhos Famintos penetra o clima reinante e nele se instala, com olhos brancos. Não brancos como a lua, o leite ou as asas dos anjos. Nada astral, nada bíblico, nem nada angélico. O branco de Olhos é o da fome. Do oco. Todos os desvãos eternos eternamente retratados nele: na fome de Olhos. 

Considerando que não me enxerga, tomo para mim orgulho idêntico e também não falo com ele. Não o cumprimento. Finjo nem notá-lo. O problema é que, apesar de ser figura bastante comum, de Olhos emana uma aura de magia absurda, que percorre feito líquida febre as veias da cidade. Que destrói com fogo as entranhas dos desavisados. 

Não sei que enigma Olhos tanto sonda, mas suspeito que a fome ancestral que o devassa seja parecida com a minha: descobrir uma alma pura e através dela investigar a cura para as podridões do mundo, para os vícios espirituais do globo, para as maldades enraizadas de todas as demais almas. 

Não. Olhos Famintos, ao contrário do que o epíteto sinistro pode sugerir, não é monstro de filme. Olhos tem fome, sim. Mas uma fome nobre. 

Olhos Famintos quer transformar a engrenagem oxidada da vida. 

Olhos Famintos é um sonhador. 

Olhos Famintos, de certa forma, sou eu. 

Olhos Famintos, espero, também seja você. 



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