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OBEDEÇA

14 Dezembro 2017 08:42:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Queremos grana, férias, chiclete, panetone e agitação. Queremos status, sossego, diminuição de impostos e sol. Queremos gritos, sapatos, decoração de Natal e gás mais barato. Queremos que o governo pare de roubar, roupas de grife e dormir. Queremos um afago, um canto só nosso, bagunça e que nos deixem em paz.

No meio de tudo isso, o que queremos de verdade?

Queremos ternura, raiva, fraternidade, hipocrisia, verdade, dissimulação. Queremos dar a cara a tapa, mas nunca levar um tapa. Queremos que nos entendam, mas não entender ninguém. Queremos ser ouvidos, mas sem sermos ouvintes. Queremos falar, mas que os outros se calem. Queremos pra ontem, mas com paciência. Queremos um amor eterno, mas que termine logo para conhecermos o próximo e não queremos, aliás, ser o próximo de ninguém, queremos ser únicos.

No meio de tudo isso, o que queremos de verdade?

Queremos viajar... e ficar, queremos morrer hoje... e viver pra sempre, queremos casar... e permanecer solteiros. Queremos agilidade... e calma. Queremos fama... e anonimato. Queremos ter... e receber admiração exclusivamente pelo que somos e não pelo que temos. Queremos barulho... e silêncio. Queremos inovar... e quando saímos da rotina ficamos doidos.

No meio de tudo isso, confusos, perdidos, alucinados, sem saber o que queremos, fica difícil conseguir. Por não conseguir, nos tornamos pessoas frustradas, porque toda frustração emana de um desejo não realizado. Mas e quando os desejos são antagônicos? Como ser fitness e sedentário? Como ser tranquilo e levar uma vida estressante? Como sorrir abertamente e evitar marcas de expressão? Como pagar os impostos e sobrar dinheiro pra qualquer outra coisa? Como beber cerveja e não ter barriga? E a pergunta mais difícil de todas, que até mesmo Freud, aposto, penaria para responder: como ser feliz e agradar aos outros?

Desconfio que todos tenhamos desejos contraditórios, só que, em algum momento, precisamos resolver qual deles é mais importante, fazer uma hierarquia de desejos, e descartar os que nos distanciam de nossos genuínos ideais. O que são ideais? Alguém ainda sabe, será? Platão saberia. Inclusive, para ele, o verdadeiro mundo era o das ideias. Mas e nós? Século XXI, boa Filosofia enterrada e política corrompida em plena forma; sabemos, mesmo, quais são nossos mais puros ideais... aliás, acreditamos em ideais? Ou será que, como diria um amigo meu, achamos que não temos outra saída a não ser trabalhar para o governo?

Única forma de estabilidade: concurso público.

Única maneira de acabar com a baderna: Um governante radicalmente conservador.

Única atitude producente: estudar para concurso.

Coloque seus desejos na mala e nem espere para abri-la tão cedo; se conforme: eles vão mofar lá. As nossas vontades são várias, só que nós, no fundo, nem precisamos escolher entre elas. A realidade é que, no meio de tudo isso, não importa o que queremos de fato. Podemos nos poupar desse trabalho de autoconhecimento porque, hoje muito mais do que ontem, carregamos uma bandeira em nossas mentes. E nela não está gravado o risível decreto de ordem e progresso. Nela está esculpida uma única e indiscutível palavra: OBEDEÇA.


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