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O sim do coração

10 Maio 2018 09:02:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação/Canção Nova)

Modernidade para a correria, para o exterior, para tudo aquilo que é leviano. Para a estrutura? Quero um colo antigo, olhar compreensivo, das minhas inquietações amigo.  

Um coque antiquado moldava seus cabelos completamente brancos. Lábios finos davam forma a um sorriso sempre indulgente, cândido, de quem passou por muitas mágoas e soube conviver com elas. Nunca descobri a cor exata de seus olhos, se verde-escuros ou cinzentos, mas hoje acho que poderiam mesmo ser tão comuns quanto os meus, de um castanho puro e, na época eu, criança, atribuía mistério àquelas íris brilhantes.

Bastante delgada, com os ossos da face salientes e os joelhos estreitos, dizia ser magra de ruim, referindo-se ao dito a respeito da incógnita de quem come muito e não engorda. Só que de ruim ela não tinha nada, era a figura esbelta da compreensão. Era o anjo que acariciava minhas dores em vez de lastimá-las.

Desde pequena, ansiosos questionamentos acerca de insondáveis condutas (humanas?) já pulsavam dentro de mim. Ela, em sua calma peculiar, respondia a tudo comparando o homem e a natureza.

Lembro que em uma ocasião, enquanto ela bordava um pinheiro em uma toalha de banho, perguntei-lhe, ingenuamente, por que pessoas más conseguiam tanta coisa, por que gente malvada tinha sucesso.

Respondeu minha avó do coração, sem tirar os olhos do bordado, que tudo aquilo que começa errado pode dar certo por um tempo, mas só por um tempo. Que nada do que inicie de modo desonesto vai prosperar. Como aquela planta do desenho: se a raiz estivesse podre, todo o resto também estaria; embora não aparentasse, de início, mas fabulosa queda seria o destino inevitável de uma árvore deteriorada.

"Não se deixe enganar por tudo aquilo que vê", aconselhava. "Nem por batalhas frágeis onde o mal parece estar na dianteira".

Não sei se entendia na época. Hoje acho que compreendo, mas continuo não sabendo se concordo. Quero crer, lógico. Mas quase sempre o ceticismo é mais forte, e até o pessimismo me vence.

Noutro dia, a criança curiosa que eu era quis saber (enquanto ela plantava uma muda de alface no quintal) como se comportaria para descobrir a vocação, se já deveria ficar alerta a inclinações. Ela sorriu com delicadeza, como era de seu feitio. Hoje percebo que além de luminosa sabedoria, aquele breve movimento de lábios demonstrava complacência para com a minha inelutável alma angustiada. Eu tinha sete anos e queria determinar minha vida toda, meus passos todos, naquele momento.

Ela perguntou de que precisava a verdura para crescer. Se necessitava de ansiedade para se fazer grande, bonita e saudável. Pensei um pouco e repliquei, confusa, que não; que só carecia ser regada de quando em quando e de condições climáticas favoráveis; o resto aconteceria, naturalmente, no tempo certo.

Aquela senhora, a personagem que invoco para atenuar dúvidas abrasivas, concordou lentamente, com um aceno da cabeça idosa, enquanto se levantava e batia as mãos uma na outra, para expulsar um pouco da terra agarrada a elas. "O que significa: plante-se em solo fértil (caminho correto), e deixe as coisas seguirem o seu natural curso".

Naquela tarde, quando o sol dava um tímido adeus, de início de inverno, e um raio fraco deixou mais resplandecentes aqueles olhos enigmáticos, pressenti, um tanto triunfante, um tanto incomodada que, pela primeira vez, ela ficaria sem resposta a uma indagação minha. Eu, a criança que naqueles tempos nada sabia. Eu, a mulher que hoje nada sabe.

"E qual seria o caminho correto?", questionei.

Sem nem um vestígio de surpresa, passou as mãos de terra pelos meus cabelos, em uma tentativa lúdica de me impregnar de natureza e lançou, apontando o indicador para o meu peito:

"A trilha que você deve seguir começa com o sim do seu coração".

Ainda hoje meu coração me prega peças. Ainda hoje, em inumeráveis circunstâncias, ele não é contundente. Mas quando fico bem quieta e finalmente ouço o seu sim, lembro dela. E o sorriso reverbera em mim. Só então sei que rumo tomar.

O sim do coração.


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