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O motivo do outro

20 Dezembro 2018 09:03:00


(Foto: Divulgação) /

A leitura nos impulsiona a análises profundas. A escrita, à reverberação delas. Não por acaso, nos últimos anos, esperar para ser atendida em um estabelecimento deixou de ser tormento para se tornar perquirição instigante. 

Gosto de imaginar a vida, as dores, as angústias, os triunfos e as inseguranças por trás de cada semblante aparentemente neutro. No interior de cada mente, aparentemente sã. Dentro de cada peito, aparentemente ileso. 

Dia chuvoso. Umidade inquietante. Pessoas nervosas. Uns olham no relógio, outros bufam, os mais discretos apenas batem com o pé. A maioria corre os dedos pela tela do celular. Eu observo. Porque nada melhor, nada mais inspirador, do que observar sem ser observada. 

Em momentos de profusa ansiedade, é quase inacreditável como as pessoas não veem quem está ao lado, não notam expressões alheias. Pior: não enxergam a si mesmas.  

Todos os setores da prefeitura congestionados; todas as cadeiras, ocupadas; todos os espaços saturados de pressa e de questões burocráticas urgentes, que não podem ser aguardadas, mas vão. O que me fez questionar até onde a urgência é mesmo urgência, e até onde estamos interessados em preservar a sanidade dos servidores. Estamos interessados? Até onde a empatia existe? Existe?

Transpirávamos. O calor, misturado ao barulho da chuva, ao constante entra-e-sai, à enxurrada de documentos, ao grunhir do triturador de papel e ao ressoar das senhas nos fazia inflamáveis. Traiçoeiros amálgamas. Como se não bastasse, a pressa, é claro, permeava cada tempo, cada espaço, cada cadeira, cada atendimento, cada coração. A pressa governava. Me concentrei em observar. Me concentrei em observar para não ser mais uma a explodir, como a senhora que, exaltada, discutia com um servidor. 

Reclamava por estar sendo transferida, sistematicamente, de setor para setor, sem resolução alguma. Reclamava da demora. Reclamava da incerteza. Reclamava da burocracia. Reclamava. Era estourada, logo vi. Não apenas naquelas circunstâncias, mas era estressada de natureza. A veia pulsante na têmpora e o enérgico inflar das narinas revelavam um temperamento irritadiço. 

Estaria assim por sofrimentos recentes ou passados e nunca digeridos? Se transformara em máquina devoradora de si mesma por rejeições, mágoas, autocensuras? E aquela vermelhidão assustadora, à beira de um ataque, já fora um dia a brancura angélica do comportamento equilibrado? Quando seu rosto fora manchado com a tinta da ira, derramada pela frustração?

O servidor, por outro lado, tentava debelar o acesso com uma submissão comovente. Ele, sim, embranquecera de todo, tive a impressão, por um instante veloz, de que até mesmo suas pupilas negras embranqueciam. Sua boca branca. Seus cabelos subitamente brancos. Cada fio convertido em representante de velhos cansaços. 

Estaria assim por medos enraizados, fracassos borbulhantes, tristeza emudecedora? 

Quando fora transmutado em labirinto de expatriações das próprias vontades? 

Robô do sistema? Ou refém de temores? 

A mulher sentada a meu lado suspirou. Um suspiro exaurido. Olhou para o relógio e disse estar mofando ali, há mais de quarenta minutos. Completamente insensível ao embate à sua frente, aos sentimentos sulfúricos da senhora irritada e do servidor amedrontado. Estaria assim, petrificada para outras necessidades que não as suas, por já ter sido esquecida demais? Adotara a técnica da surdez a outras vozes por senso de autoconservação? 

E eu? Por que hoje sou essa questionadora infatigável, esse ser humano com dificuldade de chegar a conclusões, mas, ainda assim, sequioso de conhecer? 

Talvez o que nesse Natal precisemos seja olhar com mais compreensão para quem está à nossa frente, ao nosso lado, atrás de nós e saber que, na verdade, ele tem uma razão para ser impulsivo, temeroso, frio, indagador. Um motivo novo, velho, intermediário, não importa. Ele tem um motivo. A nós cabe respeitar. E só jogar a primeira pedra quando ostentarmos a auréola da perfeição.

 

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