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O chato da foto

25 Janeiro 2018 10:16:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Tem em todo lugar: roda de amigos, reunião de família, confraternização, festa. Sobrevive também nos momentos de tédio compartilhado: o chato da foto.

O chato da foto é aquele que sempre leva sua indefectível maquinazinha para tirar centenas de fotinhos. Irritantezinho como ele só. Hora de comer: esperem antes de atacar, preciso tirar uma foto da mesa repleta. As pessoas estão conversando? Lá vai ele enfiando a máquina na cara de todo mundo (isso quando não pede para pararem de falar e fazer pose para a foto).

O chato da foto segue a exortação de Maquiavel: acha bem melhor ser temido do que amado. Porque o chato da foto é temido. Ah, como é temido. Quando ele chega, todo mundo já vai se esquivando. Mas quando é só chato, tudo bem, se releva, coitadinho dele, não tem mais o que fazer e vai azucrinar os outros, ok, pobrezinho, precisa estar sempre atulhando o Face de novidade, paciência. Só que quando o chato é chato e ainda por cima metido a engraçadinho, aí desanima de verdade.

O chato metido a engraçadinho sempre tem uma coletânea de clichês na ponta da língua, esperando para libertá-los, exatamente como liberta seus flashes medonhos: digam xis. Digam ma-çã. Sorriam para a foto, eu disse SORRIAM!. Parae, parae, uma fotinho, uma fotinho. Esse momento merece foto (só que, para ele, até brisas anais merecem foto). Sorriu? Uma foto. Chorou? Uma foto. Deu um soco no fotógrafo? Uma foto.

E é foto e mais foto. E dá-lhe foto. E é foto para lá e para cá. Foto de gente mastigando, de gente com o dente sujo de alface (aliás, "alface" é uma palavra que o chato engraçadinho pede que todos repitam na hora da foto em conjunto), de gente com a boca aberta (o chato adora flagrar as pessoas com a boca aberta e os olhos fechados). São fotos de olhos, de mãos, de pés... e como gosta de tirar foto do pé dos outros, nunca vi.

Quando se reúne o pessoal para a abominável foto do grupo (a maioria vai arrastada pelo chato da foto que, além de infernizar, também está pronto para agredir qualquer um que se recuse a participar do retrato por ele tão ansiado), o chato tem mil recomendações, que só podem ter sido cunhadas na conferência mundial dos chatos da foto, pois são sempre idênticas, em qualquer parte do globo: os mais baixos na frente, os mais altos atrás (sim, o chato comete muitas redundâncias). Você, mais para o lado! (o chato fala com empáfia, acha que manda. O chato sempre acha que manda). Você se abaixa. Hei, você lá do fundo, olha para mim. Você, aqui na frente, sorria, vai querer parecer triste na foto? Não faço questão de ficar triste na foto, mas bem que eu gostaria que o chato captasse a minha vontade de fuzilá-lo. Só que o chato é chato, o chato percebe apenas o que quer.

Não falo dos fotógrafos profissionais, aqueles que registram paisagens fabulosas, episódios históricos ou mesmo que constroem memórias quando contratados ou convidados para tal. Esses são artistas. Esses são dignos de admiração e lisonjas. Falo do chato mesmo: aquele que enche a paciência, que não tem nenhum talento especial, que porque quer ter álbuns e mais álbuns, obrigada todo o mundo a fazer parte do seu sonho egoísta.

O filósofo polonês Zygmunt Bauman criou o termo "modernidade líquida" para caracterizar as relações efêmeras e superficiais. Dialoga o tema em pauta com a perspicácia do pensador: porque a foto forçada é superfície. A foto forçada não é arte. A foto forçada não tem nenhuma elegância real. A foto forçada não dá gosto, assim como nada do que é forçado dá gosto. A foto forçada pelo chato é moderna, mas de uma modernidade líquida: sem substância, frívola. Vazia e podre.

Se falo do assunto com algum azedume é porque tenho raiva do chato. Tenho raiva, mas simultaneamente tenho pena. Essa compaixão pelo chato brota do fato de ele ser tapado o suficiente para não notar o quanto as pessoas o evitam, o quanto as pessoas, com o tempo, dele se distanciam; também porque não aproveita nada realmente, ele só se preocupa com ela, sua musa, sua deusa, sua dama, sua rainha: a foto.

Pudesse eu dizer uma única coisa ao chato da foto (sem que ele metesse uma câmera na minha cara), seria: muitos podem te adorar, mas eu te acho um mala.


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