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Nossos chiqueiros

03 Maio 2018 10:12:00

Natália Sartor de Moraes


(Imagem: Divulgação)

Perguntada sobre a origem das inspirações literárias, Willa Cather respondeu: "Claro que Nebraska é um armazém de material literário. Todos os lugares são armazéns de material literário. Se um artista autêntico nascesse no chiqueiro e ali fosse criado, ainda seria capaz de encontrar muita inspiração para sua obra. Só é preciso ter olhos para ver".   

Como muitos neste momento estão fazendo, eu, quando li a declaração da escritora, por me divertir com a metáfora, comecei logo a me imaginar nascida e criada em um chiqueiro. Pode parecer cômico, a princípio, mas a verdade é que, na maioria das vezes, escritos surgem de sujeiras emocionais aglomeradas. Sujeiras revestidas de lirismo, mas em estado bruto apenas sujeiras: tristeza, desconsolo e solidão: o chiqueiro a que deve ter querido se referir Cather.

Possivelmente eu, nascida em um chiqueiro, faria jus à mencionada categoria de suína literata e escreveria no barro as minhas ideias. Ideias que, como agora, surgiriam da observação dos meus iguais, da vivência e também das ponderações advindas dos livros que, claro, o dono do chiqueiro faria a gentileza de providenciar para mim.

Mesmo nascendo em um chiqueiro podemos nos inspirar, como espirituosamente afirmou Cather. Imagino onde ficaria localizado o meu: nos fundos do terreno, bem longe de qualquer contumaz atividade humana. Percebo como de fato os porcos são criaturas solitárias e dispõem de tempo e espaço para pensar e criar. Talvez então Willa não tenha utilizado a metáfora à deriva, mas ao constatar que o homem preserva mais semelhanças com o porco do que admite.

Criados em chiqueiro, a proximidade do chão imundo, a alimentação de restos e até os sons fatalmente emitidos por nós nos tornariam mais conscientes de nossa genuína condição, da qual os humanos apenas tentam se fazer superiores mas, quando têm coragem de reconhecer seus destinos, notam um tanto escandalizados que todos baixaremos ao chão imundo, seremos os restos e - se tivermos sorte - minguados sons ressoarão por nós.

Nossos habitats, grandes ou pequenos, pouco ou muito povoados, ocupados por raças mais ou menos prestigiadas, são o que sempre foram e jamais deixarão de ser: chiqueiros. Fonte de inspiração para Cather, nivelador universal para mim. Quando a arrogância começar a enevoar nossas vistas, possamos lembrar de que seremos eternamente os representantes do nosso chiqueiro; pois, como finalizou a escritora, endossando o que alguém já disse há mais de dois mil anos "só é preciso ter olhos para ver".


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