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NOIVOS DA NOITE

17 Maio 2018 11:44:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

Tenho o olhar treinado para flagrar o desencanto nas criaturas. E os dias de chuva, as nebulosidades frias e os desesperos quentes aguçam esse olhar. Esse olhar que não treinei por gosto. Esse olhar que o tempo treinou por mim. Esse olhar que a melancolia repetida cultiva.  

Meus passos, sôfregos; minha mente, incendiada; meus olhos, celebrados alunos do tempo, premiados pupilos da melancolia. Queria voltar para casa, a tempestade caçoando do guarda-chuva, gotas glaciais em minhas costas, meu rosto, minhas mãos; enregelando a pele, ensopando os cabelos.

Então a vi. Silhueta jovem, mas o rosto. Ah, o rosto. O rosto era velho, fatigado. Demorava-se numa vida que não a amava. Tinha a cabeça encostada na janela da sacada do segundo andar de um condomínio. Presumi que em dias de sol bem poderia estar sem o vidro a separá-la do lado de lá. Em períodos de chuva, o isolamento, pingos escorrendo, negror antecipado, nem cinco da tarde e vejam que escuridão. Dentro dela...mais?

Muitos graus de miopia e a chuva em profusão me impediram de ver se chorava. Muita empatia e a emanação da aura escurecida me fizeram deduzir que sim, se não pelos olhos, pelo coração. Chorava pelo coração, gritava pela alma e esperneava quieta. Funções corporais deslocadas. Definições saturadas.

Não olhava para mim. Mirava o chão, talvez lastimando as poças, mas mais provavelmente em uma premonição. É de minha verve romântica afirmar que nada no mundo conseguiria deixá-la mais bela do que naquele momento: protegida da chuva por um vidro gelado, sujo das lágrimas do céu, cabeça indecisa entre seu casulo e o lado de lá da janela, por isso nela apoiada, por isso por ela escorada, pedindo ao chão para que eternamente se enlaçassem. Rogando casamento ao noivo de tantas noites.

Não, é lógico que não consegui enxergar o mais importante: os olhos dela. Não vi e o lamento dessa ignorância me fez imaginar. Eram pretos. Vermelhos. Marrons. Eram tristes, resignados, irradiações de melodias de sua alma. Sons. Eram pedintes. Mendigos do chão.

Secos ou úmidos, choravam.

Aqueles olhos, antes de mais nada, muito acima de qualquer desconhecimento acerca deles, eram noivos. Noivos do pó, do solo árido tão recentemente consolado. Noivos da escuridão que se aproximava. Noivos da noite.


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