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Nem o pó

23 Novembro 2017 07:00:00


(Foto: Divulgação)

Elegemos prioridades, é fato. Sempre sufragamos prioridades. Em cada fase, as prioridades mudam. A própria humanidade muda de fases e, consequentemente, de prioridades.

Me contam a história remota de meus ancestrais. A prioridade deles era o equilíbrio; por isso procuravam estar sempre em contato com a natureza, ouvindo os sentimentos, aprimorando a intuição. Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é ganhar, ter, poder, nem que para isso precisemos anular o que somos; nossas vontades em uma camisa de força, nossos talentos desmaiados.

Ouço falar de pessoas que, em outros tempos, outra vida, outra realidade, plantavam pequenos momentos felizes a cada dia para, no futuro, colherem a plenitude. Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é aceitar os ideais que a sociedade planta em nós para, em um futuro decepcionante, colhermos a frustração.

É com alguma dor que escuto que antes, em épocas saudosas, a prioridade era a calma, a decisão firme porque calcada na serenidade, as relações humanas duradouras porque cultivadas com sanidade. Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é a ânsia, as coisas que ainda estamos fazendo (com pressa), precisávamos ter feito há uma semana (com muito mais pressa). Hoje nossas resoluções são influenciadas pelo relógio que tiquetaqueia insistentemente em nossos ouvidos, que irrita nosso cérebro, que faz milhares de toxinas produzidas pelo estresse serem jogadas em nós. Nosso corpo e nossa mente se nutrem de lixo todos os dias.

Antes, queriam viver: escolher alguém para estar ao lado (e realmente ESTAR AO LADO), acompanhar o crescimento dos filhos (e crescer junto), construir uma carreira que os fizesse sentir realizados como seres humanos (mesmo que não tivessem grandes possibilidades de enriquecer com isso). Hoje a prioridade é outra. Hoje a prioridade é viver quando der tempo. Se der tempo. Escolher alguém tão ou mais ambicioso, para nunca estarem juntos (ambos trabalhando o dia todo e, à noite, cada um montando a sua planilha em cômodos bem afastados da casa de três andares, para caírem mortos de exaustão às quatro da manhã, sobre o teclado do computador). Hoje a prioridade é não acompanhar o crescimento dos filhos, porque hoje a prioridade número um é não ter filhos. A prioridade número um é que a casa enorme fique mais enorme pela ausência de pessoas e ainda mais fria, pelo excesso de máquinas. Hei! Prioridade: ganhar muito, seja em que trabalho for - quem se interessa em ter satisfação na vida? O que é satisfação? Dá lucro? -, desde que remunere bem, o suficiente para pagar uma excelente terapia e ter um estoque dos mais avançados ansiolíticos do mercado. Porque hoje todo mundo é craque em saber sobre os melhores ansiolíticos, mas ninguém mais sabe o que é dormir oito horas por noite.

Oito horas? Hoje é louco quem dorme oito horas. Os mais equilibrados conseguem dormir seis de um sono fragmentado e turbulento. É anormal quem dorme oito horas tendo milhões de compromissos, a agenda cheia, o dia apertado, a cabeça a mil, o coração a zero. Normal, hoje, é ser anormal: não dormir (porque não há tempo), se alimentar de fast-food (porque não há tempo), não apreciar a natureza (você é maluca? Onde se arranja tempo pra isso?), não fazer exercícios físicos (aí você já está de brincadeira. Escolha: ou eu durmo, ou eu como, ou eu contemplo a natureza, ou eu me exercito. Mas tudo no mesmo dia?).

O projeto desta geração está dividido assim (porque hoje, para tudo, precisa-se fazer um projeto antes. Aquele mesmo que ninguém vai ler e você dará graças aos céus quando se livrar dele):

Objetivo geral: Fazer o que a sociedade manda.

Objetivos específicos: 1) Viver mal; 2) Morrer mal; 3) Ter o melhor jazigo do cemitério.

A única circunstância sábia desses nossos tempos é que o objetivo específico número 3 dificilmente se realizará, uma vez que devemos todos ser cremados.

Por isso, deixo aqui um pedido e um recado aos nossos descendentes. O pedido: comecem desde já a construir prioridades mais humanas. O recado: joguem as nossas cinzas fora, sem dó. Para que não reste nem o pó desta fase infeliz.


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