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Náusea existencial

13 Dezembro 2018 11:33:00


(Foto: Divulgação) 

Me disse sofrer de náusea existencial. Falou que sentia a existência como um bolo negro e amargo no estômago, que crescia, que se expandia, dilacerando, gerando ânsia, fazendo subirem evaporações pútridas à garganta.

O bolo tinha espinhos na superfície. Espinhos que, a cada respiração, iam rasgando. O gosto metálico de sangue embebendo o palato. 

Apesar de se deparar com o diagnóstico de úlcera, sabia se tratar de náusea existencial.

Tudo isso me contou a jovem mulher que, naquele dia, sentada a meu lado em um banco da pracinha em frente à Matriz, revelou que os belos enfeites natalinos tocavam seus olhos, mas não chegavam ao coração. Porque no coração não havia mais espaço. Estava completamente tomado pela náusea: a náusea que crescia, crescia, irritava a garganta e nunca, nunca, era expelida pela boca. 

Um enjoo que se prolonga e jamais é libertado. 

"Não é na cabeça. Não é no coração. É no estômago! A desolação se concentra no estômago. Fatos mal digeridos, nunca metabolizados. Tivesse eu vomitado, ficado mal, entontecido; mas vomitado esse passado que não quer sair de mim, que se agarrou ao estômago e ali ficou: apertando, doendo, torturando. O passado não quer me libertar. E eu também não consigo me desfazer dele. Tem dias que sobe, sobe, se despedindo; me exasperando de aflição, mas se despedindo. 

Faz isso só para me ludibriar. Não vai embora. É o parasita da minha sonhada felicidade. É um parasita que está sugando as vísceras, consumindo a minha força. Um parasita que encarcera. Lidera. Impedindo que eu me nutra do presente".

Ela gritou, chorou; então enlaçou o ventre e disse que o incêndio emocional tinha feito o bolo avolumar-se. Que agora latejava e irradiava desespero por todo o corpo. Fluindo ácido. O passado, morto, incapaz de ressuscitar, entretanto aferrado ao túmulo, se decompunha dentro dela. Não aceitava findar. E ela não aceitava o seu término. Era uma obsessão recíproca. Um apego irracional. 

No ato de abraçar-se, abraçar-se desamparada e, em seguida, engolir a saliva com sofreguidão, percebi que, apesar da dor, apesar dos grilhões, ela não queria, de fato, soltar a bolha podre de dentro de si. Ela queria mantê-la ali até que, uma delas, finalmente, não suportasse mais e abandonasse a outra. 

Qual das duas: a bolha ou ela, seria a primeira a padecer, admitindo a finitude?

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