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Morre um coração

01 Março 2018 00:00:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


Está bastante doente. O avanço dos anos parece ter irrefragável culpa no progresso da enfermidade. Fui à sua casa dia desses e ela, com impressionante bom humor, referiu-se à última consulta médica: 

- A primeira coisa que o doutor me perguntou foi a idade. E para idade não tem remédio na farmácia.

De fato. Para idade inexiste remédio na farmácia. Ou em qualquer outro lugar. Só que a velhice, sozinha, é incapaz de trazer os tumores da alma. A velhice pode até ser prelúdio do fim de um corpo; de um coração, nem sempre. Um coração morre bem antes.

Um coração morre quando visitado por males para os quais também nunca se encontrará remédio.

Um coração morre sufocado por enquistamentos de desgosto. Um coração morre por ataques de bactérias resistentes, chamadas mágoas. Um coração morre por intoxicação de palavras silenciadas. Um coração morre por afogamento em lágrimas seguradas. Um coração morre de estrangulamento nas mãos da tristeza. Um coração morre de derrame: frustrações, quando derramadas repetidamente, matam um coração.

Todavia, um coração não fenece apenas por excessos, também expira por faltas. Morre um coração de indiferença, o chamado sopro. Doença grave essa, maquinada pelo isolamento. Morre um coração de apatia - o tanto faz ainda fará muito: assassinará um coração. Morre um coração de vazio. O nada é ácido que deforma um coração; depois o despedaça, vagarosamente, até que não sobre nem mais um pedacinho para doer. Morre um coração de saudade, de ausência mal-resolvida, de machucado ardente, de ferida incicatrizável.

Entretanto, às vezes, sintomas enfermiços demoram a matar um coração. Ele então sofre anos, décadas; frações de século amargando, doendo, gemendo e assim se suicidando, dia a dia. Porque um coração se suicida.

Se suicida um coração quando seus esforços são vãos,

Quando a esperança dele se esqueceu,

Quando o horizonte escureceu,

Quando a alegria desapareceu,

Quando a angústia chega

A passo traiçoeiro e anuncia,

Com hálito tétrico: sou eu.

Um coração adoece. Um coração morre. Um coração é assassinado. Um coração se mata. Um coração maltratado caminha a uma destruição bem mais pungente do que aquela a que conduz a idade.

Quando me levantei para sair, ela disse:

- Têm dias que a gente só quer alguém para conversar. Alguém que nos diga que se não está tudo bem, vai ficar.

"Vai ficar", pensei. Desde que a moléstia não esteja alojada no coração, sempre fica tudo bem, qualquer que seja o desfecho. Neste ou em outro mundo.

Se seu corpo logo for, torço para que não se quebre antes o coração.


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