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Minha vela de novo

11 Janeiro 2018 10:22:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /


De todos os perversos sons, o que mais me intimida é o do tempo rugindo em meus ouvidos. Esse leão inexorável em geral é silencioso, mas se fico bem quieta posso ouvi-lo rugindo para mim; só que às vezes é pior. Às vezes, ele ruge dentro de mim.

E é esse mesmo tempo, faminto insaturável que busco, não sei exatamente por que razão, resgatar.

Ainda ontem meus pais recordavam, divertidos, sobre o dia em que feri o indicador na chama de uma vela. Queimei o dedo - feio, segundo eles - e nem lembro mais. Devia ter dois ou três anos e o pai me advertiu, dramatizou a cena de um dedo machucado, assoprou o hipotético ferimento em si mesmo e com um pouco mais de esforço teria criado uma segunda cabeça, tudo para afastar minha atenção da vela.

Sem sucesso. Não desisti. De acordo com o relato dele, meu olhar hoje perdido, na época concentrado e flamejante, brilhou ainda mais com a chama da vela. Eu a queria para mim. Queria aquela luz. Quem sabe pressentia que iria precisar dela nas escuridões que viriam me espreitar. Então, a despeito de toda a admoestação - verbal e teatral -, meti o dedinho de criança naquele fulgor alaranjado.

A consequência vocês devem saber: grande bolha e berreiro. Mas tristeza, tristeza mesmo, dessas que achatam as ideias e afogam o coração, duvido muito. Queimadurinha de nada. Fogo amigo. Luz que ainda busco.

Não tenciono com isso dizer que não fui teimosa, metida e até meio burra. Fui mesmo. Tudo isso e mais. Só que, se toda a teimosia, infantil arrogância e inocente burrice resultassem num dedo queimado e na fantasia de iluminação - interna e eterna -, eu faria novamente.

Na verdade, percebo que quero aquela vela de novo. Aquela chama de novo. Aquele berreiro de novo. Desde que a vela me traga delírios puros; a chama, esperança; e o berreiro, ah, o berreiro silêncio para o grito imorredouro das minhas aflições. Desde que tudo isso aquiete o rugido do tempo. E se o preço a pagar for o de um dedo lesado, tudo bem. Que seja assim: eu topo, vamos lá, a vida é isso. A vida é encarar danos menores enquanto ainda há oportunidade, antes que os maiores se sobreponham.

Minha vela de novo. Eu quero a minha vela de novo. Falo isso com presunção, é claro. Aquela não era a minha vela. Não tinha nenhuma marca customizada nem fora presente especial, nada disso. Foi apenas uma vela comum que a família usou para tentar brilhar quando faltou luz. Benditas sejam as velas - as materiais e as metafísicas - porque, se toda ausência de luz pudesse com elas se resolver, não haveria sórdida escuridão nesses becos ocos em que por vezes se transformam os nossos corações.

Queria resgatar o tempo. Para isso, poderia começar resgatando a vela, a chama de dulcificadas ilusões. Luz que alimenta. Brilho que cura. Poderia iniciar o resgate de todas as emoções que ele, o próprio tempo, sequestrou de mim. Resgatar o tempo que é o sequestrador de si mesmo.

Não creio que consiga tão cedo. Ao menos não antes que os terríveis gemidos do leão irrefreável me ensurdeçam. Com isso, com esse frágil acreditar, há quem diga que a minha falta de fé é perturbadora. Pode ser. Mas uma valente migalha de esperança ainda tenho para pedir duas coisas para a vida: minha vela de novo e que o tempo pare de rugir nos meus ouvidos.


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