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Meu diário

22 Março 2018 10:56:00

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/


Como é numerosa a quantidade de escritores a deixar diários. Romances em forma de diário; desassossegos que assumiram jeito de diário; outros diários que não foram escritos para conhecimento geral, mas assim aconteceu, porque ninguém respeita o desejo de um morto, sobretudo quando o morto teve talento, pois aí o infeliz indivíduo era do mundo e não dele mesmo.  

Interessa se o mundo nunca secou suas lágrimas? Interessa se, pelo contrário, o próprio mundo gerou a maioria delas? Não, não importa. Importa é que o morto era talentoso e abandonou escritos secretos que, afinal, foram triunfantemente descobertos e publicados.

Deve ser por isso que quem escreve em profusão tem a cautela de destruir aquilo que não quer ver publicado; porquanto aprendeu que mortos não têm vontade, salvo aquela expressa em testamento. Se bem que, ficando decidido que a humanidade pode prosperar com a divulgação do escrito, danem-se as razões do pobre coitado que escreveu e pediu para não ser exposto.

Fosse eu rabiscar alguma coisa em um diário, seria detonada pela crítica literária: não tenho nada de original para falar sobre a minha vida. Ela é o mesmo punhado de desgostos que tantos outros antes de mim já relataram. Ela é a mesma imensidão de perguntas sem respostas que muitos já levantaram. Ela é o diário inacabado que cansei de escrever.

Ainda assim, fosse eu escrever um diário, rasgaria cada página depois de finalizada, talvez por loucura, mas mais provavelmente para simbolizar o que acabou acontecendo com os meus sonhos.

Entre garranchos destroçados, penso que falaria a respeito das idealizações fracassadas da vida, acerca das inumeráveis rotas que me iludi antes de trilhar e depois voltei atrás, sem ter exatamente para onde retornar. Voltei por voltar. Voltei por saber que aquele caminho não me levaria a nada, embora o retorno tampouco fosse capaz de fazê-lo. Voltei e me perdi. Contudo, se continuasse, ficaria também perdida. Todas as escolhas, em vão. Decepção nasceu predeterminada. Me debati de teimosa. Repensei a trilha tão somente para dar trabalho aos neurônios que, assim como eu, cansaram cedo.

A cada trajeto percorrido, percorrem minha mente (em velocidade muito maior) questionamentos existenciais, os quais têm a mesmíssima importância da vontade de um morto. Todavia, incapaz de controlar as ebulições mentais e emocionais, enquanto analiso cada itinerário, me pergunto: para onde isto está me conduzindo? Me deixa mais feliz? A primeira indagação influi pouco: para qualquer lugar, a estrada sempre será repensada e, por fim, descartada: condição inalienável da insatisfação que trago dentro. Se a primeira vale pouco, a segunda vale nada: para que querer saber se me deixa mais feliz se nem ao menos desvendei o que é felicidade?

Inutilidades devidamente cedidas à lixeira, restam futilidades para descrever. Como futilidades não merecem ser descritas, ou quem sabe seja eu que não tenha nenhuma vocação para eternizá-las, sinto informar, mas não vai sobrar nada do meu diário.

Meu diário frustrou.

Retrato de minha vida,

Que errou.

Meu diário é folha branca e,

Assim como eu,

Desencantou.


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