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ISABELLE

21 Junho 2018 14:21:00


(Foto: Divulgação) 

Introspectiva, nem um aceno me deu durante o tempo em que estive perto dela. Discreta, não analisava as outras pessoas. Meditativa, mordia um pedaço de qualquer coisa quando, em verdade, procurava digerir as próprias dores.  

Estabelecimento comum, pouca gente, pouco barulho. Me sentei à mesa ao lado da dela, quase encostada. Não pareceu me enxergar, perdida em algum beco de suas ausências. Figura apagada, mãos que tremulavam ao segurar a xícara. Tomou um gole do conteúdo e seus lábios se retesaram; se o gosto amargo era do café ou da vida, não sei dizer.

Um livro sobre a mesa. Marcador customizado onde seu primeiro nome aparecia em letras azuis. Isabelle.

Antes que alguém tente adivinhar se a conhece, aviso logo que a história não se passou em Curitibanos, tampouco recentemente. Isabelle (presumindo que aquele marcador de páginas fosse dela) procurava esconder os olhos com uma mecha dos cabelos ruivos. Só que desencanto e amargor não precisam dos olhos para se mostrar. Desencanto e amargor exalam, irradiam e envolvem. Desencanto e amargor são odores da alma que necessitam apenas de olfatos sensibilizados pelos mesmos motivos para serem captados.

Nos quatro ou cinco minutos que se seguiram o entorpecimento inicial de Isabelle se tornou inquietação, como tão bem poderão entender os ansiosos. Impaciente, não esperou que o garçom depositasse na mesa a segunda xícara de café, foi logo se antecipando, agarrando a porcelana da bandeja e derramando gotas negras sobre a toalha alva. Deixou que um naco de torta caísse no chão, na ânsia de colocar uma porção grande demais na boca. Então suspirou, largou garfo, xícara e desistiu.

Aquele algo ou alguém que perturbava Isabelle a convertia em uma montanha-russa de emoções. Da paralisação ao caos. Da solidão ao delírio atordoante de pertencimento. Da ansiedade à desistência completa. Isabelle e suas perdas. Isabelle e seus segredos.

Talvez o livro de poemas de Fernando Pessoa fosse via labiríntica de encontro. Talvez se reconhecesse naquelas páginas. Talvez os sentimentos tumultuados do poeta a confortassem ao notar que mais alguém, embora brilhante e aclamado, também teve dentro de si uma terrível solidão que nenhum prestígio no mundo foi capaz de sanar.

Em dado momento Isabelle deve ter detectado minha indisfarçada curiosidade, uma vez que senti a chama de seus olhos sobre os meus enquanto agarrava com fúria o volume, pegava a bolsa e se dirigia ao caixa, permitindo que ficasse sobre a mesa a comida quase intacta.

Cínica, não me intimidei e assisti àquele furacão abandonar o restaurante. Em sua zanga o marcador caíra diante da porta. Vislumbrei o retalho de papel e me dirigi até lá. Agachando-me, percebi que mais uma palavra estava ao lado do primeiro nome, antes oculta pelo livro.

Um sobrenome.

Se real ou por ela inventado na agonia de criar identidade, impossível descobrir.

Um sobrenome que, até hoje, depois de tantos anos daquele encontro, em mim ressoa.

Isabelle Pessoa.


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