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Invisível aos olhos

14 Fevereiro 2019 11:26:00


Divulgação/

Impossível lembrar o ano exato. E o que são números, quando a profundidade do ensinamento sobrepuja precisões matemáticas? Eu devia ter 5, 8, 15 ou 20 anos, não sei. Talvez 22... ou 23, ou quem sabe foi ano passado, ou esse mesmo. Enquanto o mundo não acaba, de que importa se me refiro às profecias de seu término ou aos seus ciclos e reinícios?

Tudo bem. Façam de conta que foi ontem. Ou hoje. Ou me imaginem adolescente, ou criança. Imaginem da forma que vossos sábios corações solicitarem: estarão no caminho acertado, caso assim procedam. 

Estava eu (hoje, ontem, há dez anos, há vinte) admirando um imenso campo verde. De um lado, árvores: de flores, de frutos, de verdades, de questionamentos, de folhas, de cores, de incógnitas e de respostas. Árvores, enfim: o que vem da terra e se orgulha de suas raízes sempre é símbolo de completude. 

De outro, apenas o campo: limpo, aparentemente virgem, mas nem por isso menos aromatizado de promessas. O homem ao meu lado, assim como eu, contemplava as flores das árvores, antegozava o sabor de seus frutos, pressentia respostas e ouvia o eco imorredouro daquelas incógnitas. 

Pisávamos no solo virgem para poder refletir sobre o fecundo. Éramos intermediários. Eu, criança, intermediária, não se sabe do quê. Eu, adolescente, intermediária, não se sabe do quê. Eu, adulta, intermediária, sabe-se ainda menos do quê. 

O homem, me vendo erguer o olhar para alcançar a copa das árvores, perguntou por que me dava àquele esforço, uma vez que, sob meus pés, havia beleza tão ou mais promissora. Ali, comigo. Ali, em mim. Ali, abraçando-me os pés.

Muda, olhei-o de um jeito desconfiado. À minha calada rabugice, ele sorriu e replicou, pacientemente: "plantei dezenas de árvores, aqui, onde estamos. Vão crescer, vão florescer, vão frutificar, vão inquietar com perguntas tácitas, vão dar respostas letais às frívolas ânsias da humanidade; mas, por enquanto, são apenas sementes. Nem por isso inexistem. Nem por isso esse solo é virgem. Não existe terra virgem. Não existe mente virgem. Existem sementes, invisíveis aos olhos da matéria; na minha crença, porém, são plantas feitas, maduras. Já se desenvolveram. Porque vão".  

Me deu no que matutar. Fiquei mais quieta ainda, mais pensativa ainda. O Pequeno Príncipe, naquele instante, veio soprar aos meus ouvidos que o essencial é invisível para os olhos. Corroborando a universal verdade aprendida pelo menino, o homem, exibindo uma expressão de tranquila sabedoria, desafiou:

"Ainda duvida do poder do invisível?".

Olhei para meus pés: abaixo deles, logo abaixo deles.

O invisível.

O invisível que, porém, se prepara para germinar. 

O esplêndido invisível. 

O agora-invisível. 

O futuro-notável. 

O triunfo que os olhos não podem ver, mas que o espírito adivinha. 

A esperança 

Em sua origem. 

Porque não há 

Terra virgem.    

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